Num só dia, espetam-nos dois murros no estômago. Com assinatura de Alberto João Jardim, a Região Autónoma da Madeira passa ao equivalente a uma Junta de Freguesia da Madeira. Com a anuência do Governo Regional, perde-se a ligação marítima para Canárias e Portimão. Infelizmente, ontem, fez-se história na Madeira. História negra. Foi um dia de luto. Foi o início de anos difíceis. Apetece dizer: muito obrigado dr. Jardim. Obrigado pelo que fez, e escrevo-o com sinceridade. E obrigado pelo que deixou que fizessem em nosso nome e isto digo-o com mágoa. Obrigado por ter escondido dívida que fez de nós motivo de chacota nacional e que nos leva a apanhar agora a correspondente bordoada; por anunciar, como quem anuncia um aumento de ordenado, o pior pacote de medidas que algumas vez a Madeira conheceu desde o 25 de Abril; por ter hipotecado a minha geração e anulado o que podia ter sido um futuro mais promissor, mesmo que longe de ser tão risonho como sonhou a geração anterior; por ter conseguido um empréstimo que nos obriga a pagar até 2031; pelo corte de despesas na Saúde, pelo encerramento dos serviços de urgência, pelo cancelamento do novo hospital, pelo aumento com nossas despesas com a Educação, por toda a carga de impostos que vai fazer recair sobre todos nós, sobretudo a partir de 1 de Abril. E não é peta! Por semear Sociedades Desportivas que agora, na desportiva, admite vender a pataco; por, em tão poucos meses, ter deitado a perder anos de conquistas autonómicas. Ironicamente, a maior parte delas lideradas por quem agora as desbarata. O mais grave de tudo isto é que somos nós, os cidadãos, os trabalhadores e os desempregados, os ricos e os pobres, os velhos e os novos, os do poder e os da oposição, os campo e os da cidade, os doutores e os analfabetos, os governantes e os governados, somos nós todos que vamos pagar por opções políticas feitas em cima de joelho. E nós não merecíamos tamanha canga. Muito menos as largas maiorias de eleitores que ajudaram a chegar até aqui, até ao fim da linha. Voltemos às ligações marítimas: assistimos esta semana a um exemplo do que é o desgoverno. O armador formaliza o anúncio do fim de um serviço importante para a Região. Informa os clientes e torna pública essa intenção. Resposta do Governo: Formalmente, não sabemos de nada. Formalmente! As negociações arrastam-se, os apelos multiplicam-se, o desespero espreita sobre algumas empresas, o aumento de preços parece inevitável. E lá voltamos nós a ter de pagar. E o Governo continua: que não sabia de nada, que formalmente não fora informado. Só passados três dias é que reagiu. Disse que o armador quer benesses a mais. E decidiu que não há nada para ninguém. No meio desta trapalhada só espero que alguém esteja a pensar numa solução. Não me interessa rigorosamente nada se é o Armas, se são os Sousas, os Calaças, os Silvas, desde que em igualdade de condições. O que me interessa é que os madeirenses voltem a ter a possibilidade de usufruir de uma alternativa nas mesmas condições, ou melhores, do que as que ofereciam os espanhóis. Sem isso, e com o flagelo que aí vem, mais vale fazer como nos jogos de cartas quando se detecta que houve engano ou trafulhice: deitar o jogo abaixo e dar cartas de novo. Ou boletins de voto!