Um amigo telefonou-me para me dar a boa nova de que ia emigrar. Disse-o assim, de uma assentada só, como quem encontrou a salvação em terra de condenados. Confesso que fiquei estupefacta. Não porque a emigração seja um problema para mim - sou uma assumida filha de emigrantes - mas devido à argumentação invocada para tal opção. Durante cerca de uma hora, na verdade, fui literalmente bombardeada com razões que se confundiam com objetivos e que, acima de tudo, deixavam a nu uma boa dose de comovedora ilusão sobre o que é, de facto, isto de emigrar. É claro que lho disse, mas em vão. A ideia do telefonema não fora para auscultar a minha opinião. Nada disso. Ele queria apenas se ouvir a si próprio e, através desse exercício, se convencer de que El Dorado existe, ali mesmo, à mão de semear. Ouvi-o então em silêncio para só no fim lhe perguntar pela filha, uma linda menina de cinco anos. Fica aqui com a mãe, respondeu-me com a voz a tremer, garantindo, com falso entusiasmo, que em sete anos voltaria com dinheiro suficiente para pagar a casa e ser feliz. E foi aqui que dei por mim a pensar como é possível que, apesar de tanta pancada, ainda sejamos um povo de sonhadores. Porque é disso que se trata, de sonhar e, pior ainda, de sonhar em tempos que não se compadecem com ilusões e que exigem os pés bem assentes na terra. Desde que esta maldita crise se instalou comodamente entre nós, a emigração passou a ser tema recorrente de conversa. Brasil, Angola e Moçambique são agora destinos mitificados que fazem salivar muitos, fazendo-os acreditar que é tudo uma questão de chegar, ver e vencer. Mas não é assim. Antes fosse, mas não é. Emigração é sinónimo de trabalhar para ganhar um lugar ao sol e, cá entre nós, sabemos que os últimos anos nos transformaram num povo talhado para a boa vida e não para o trabalho árduo. É verdade, sejamos honestos. A política do subsídio e do rendimento mínimo aliada a uma falsa estabilidade económica e laboral tornaram-nos preguiçosos, acomodados e, sobretudo, arrogantes ao ponto de ainda hoje, no meio de todo este descalabro, ainda haver quem franza o nariz quando tem de ficar além da hora no serviço. Habituámo-nos a ter emprego, não trabalho. Gostamos de entrar depois das nove. Não dispensamos o cafezinho da manhã e muito menos o da tarde. O almocinho, esse tem de ser a horas e sempre de garfo e faca. E, no que toca ao cumprimento do dever, é certo que sempre que podemos deixamos para amanhã o esforço que podíamos fazer hoje. É um facto: não temos espírito de sacrifício nem amor à camisola. Por isso, soa-me sempre a falso essa ideia de que sair de Portugal é sair da crise. O mundo lá fora não se compadece com as nossas mordomias. Não que não tenha as suas, mas essas já estão por conta dos naturais que, tal como nós, também criaram os seus maus hábitos. Em terra alheia, o emigrante só conta consigo. Mais ninguém. Se quer vingar, tem de primar pela humildade de começar do zero e, sobretudo, pela capacidade de mostrar o que vale não por presunção, mas por brio e necessidade de justificar o que ganha. Há quem diga que esta crise de dimensões internacionais é uma espécie de deus ex machina que veio para repor o equilíbrio numa sociedade que se habituou a gastar e não a produzir. Gosto dessa ideia. Gosto de acreditar nessa dialética que transforma o mal em bem e que, de tudo isto, sairá alguma regeneração. Mais individual do que coletiva, é certo, mas fundamental. Gosto de pensar que, se a minha geração não tem cura, a que se segue terá, encarnando o espírito de emigrante, mas, desta feita, dentro das suas próprias fronteiras. Porque simplesmente não faz sentido dar a outras terras o que a nossa está sedenta de ter - poder de iniciativa, capacidade de trabalho e, sobretudo, brio profissional.
Eker Sommer