Vários estudos e declarações de políticos e governantes das regiões insulares situadas no Atlântico Norte, próximo da Europa e da África, e mais uma extensa faixa costeira situada no Noroeste do continente africano, que se estende desde Marrocos até ao Senegal, têm apontado para as afinidades deste espaço e para a necessidade de ser aproveitado como potenciador de uma união de interesses económicos e sociais. Um sugestão de boa vizinhança e de promoção conjunta que, infelizmente, não se tem concretizado, nem sequer entusiasmado muito os que por aqui vivem, mais interessados em alcançar terras desenvolvidas da metrópole europeia, ou de outro continente que garanta uma continuidade territorial seca e não entrecortada pelas águas de mares de navegação difícil ou trabalhosa. O espaço insular está institucionalizado e Cabo Verde, país independente e criado nesta zona de passagem atlântica, assumiu a 12 de Dezembro de 2012, a presidência e o secretariado da Cimeira dos Arquipélagos da Macaronésia (CAM) por um período de dois anos. A primeira cimeira, que decorreu na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, visou essencialmente criar um espaço de concertação política e de cooperação para o desenvolvimento entre as ilhas de Canárias, Açores, Madeira e Cabo Verde. Contudo, não tem sido fácil esse entendimento, ou, talvez, a ideia nem sequer evoluiu com a dinâmica que movimentou uns quantos que se reuniram no muito cantado Mindelo, porto de marinheiros errantes e terra de poetas e músicos. Não temos sabido aproveitar o muito que nos une, nem sequer descobrir entre as diferenças que afirmam esta interessante diversidade os factos e as razões que justificam a convergência num estatuto de interesse para as partes. Neste aspecto os transportes, quer sejam marítimos, quer sejam aéreos, serão o campo de excelência para a experiência que poderá demonstrar a principal face positiva desse cooperação. Faz todo o sentido que a SATA, grupo aéreo de aviação comercial dos Açores, tenha adoptado a designação ‘The Atlantic for you’ (‘O Atlântico para si’) com perspectivas de voar por todos os pontos que definem a Macaronésia. Faz sentido que os canários nos tenham estendido a mão nos transportes marítimos entre as ilhas e o continente, e criado uma primeira rede de itinerários que se têm revelado de grande utilidade num xadrez geo-estratégico, com vantagens e mais-valias, sobretudo para os madeirenses. Voltámos a não saber aproveitar, tal como aconteceu no passado com a SATA, quando a Região Autónoma não entendeu a aproximação e as forças político-partidárias dominantes preferiram repelir-se, em vez de unir-se. No caso da ‘Naviera Armas’ não nos parece haver uma motivação político-partidária intrínseca ao processo, mas há muita falta de entendimento e de humildade, quando somos nós, madeirenses, que deveríamos aproveitar a oportunidade que nos dão, e que até tem proporcionado resultados animadores. Contudo, há duas ‘meias-verdades’ neste processo que está a empolgar a população da Madeira: uma é de que as entidades governamentais não estão interessadas em sujeitar-se às exigências do armador das Canárias, para, eventualmente, proteger os interesses de um grupo económico dominante nos negócios da orla marítima; a outra é a pouca abertura empresarial do armador espanhol, que se apresentara sem exigências e que não pretende sujeitar-se aos riscos de uma economia de escala, funcionando em mercado aberto sem recorrer a subsídios ou favores governamentais, quer da Região, quer da República. São duas ‘meias-verdades’… e ambos os visados, o Governo Regional da Madeira e a ‘Naviera Armas’ primam por estarem de costas voltadas, lidando em palcos exteriores uma contenda de resultado imprevisível. É o que faz não haver abertura e humildade suficientes para enfrentar as questões de frente. A ‘brincadeira’ da Naviera Armas falar aos madeirenses através das redes sociais, não obstante as reconhecidas vantagens que as tecnologias de informação hoje têm na vida de cada um e na agilização de processos e a sua contribuição para uma comunicação mais rápida e eficaz, e a surdez do Governo Regional neste processo, são dois factos que irritam e que justificam e mostram este andar de costas voltadas, comum em quase todas as iniciativas sugeridas no contexto da Macaronésia. Um ambiente típico de pequenas invejas, de lutas fulanizadas, com os políticos de palanque e de turno a arrumar dividendos, e a retribuir agradecimentos, mesmo que no resultado final o que menos importa seja a conveniência e o interesse das populações. É assim quando vivemos rodeados de água: capazes do melhor e do pior. Até de nos convencermos que somos superiores quando algumas atitudes mostram uma postura inferior. Será um pecado original que nasce com o ilhéu da Macaronésia?!... Nunca se sabe.