José Agostinho Baptista A ser verdade a triste notícia de que a NAVIERA ARMAS deixará de fazer viagens a Portugal, o desgosto que sinto é um misto de pesar e de revolta. Pesar porque durante quatro anos tive o prazer de cruzar o Atlântico dez vezes, resgatando assim o meu pavor ao avião, e porque nunca mais poderei voltar a ter esse prazer. Pesar porque foi a NAVIERA ARMAS que me permitiu viajar todos estes últimos anos para a Madeira e desse modo sentir crescer dentro de mim o meu amor pelo berço primordial, de tal modo que em breve iria regressar definitivamente a essa ilha, o meu verdadeiro lugar. Revolta por constatar uma vez mais que isto de ser português é um fardo que pesa cada vez mais e nem deixa espaço para o mínimo orgulho de pertencer a um rectângulo ocidental. Revolta porque a NAVIERA ARMAS prestava um serviço inestimável aos portugueses que gostam do mar ou têm fobia aos pássaros de aço cuja filosofia é poupar tempo como se o tempo não fosse uma mera questão aleatória e materialista que não se compadece com romantismos tão fora de moda, tão anacrónicos para as maiorias sem vestígios poéticos dentro de si. Revolta pelo clima de guerrilha permanente que sempre acompanhou o armador espanhol nos portos de Portugal. A ser verdade, repito, esta triste notícia, só me resta agradecer, do fundo do coração, a António Armas, pai e filho, os momentos de alegria e poéticas recordações que guardarei como gratificantes experiências dentro de mim. E mais não digo, pois se o dissesse, isso representaria mais alguns tiros nos pés, como já tantas vezes dei a mim próprio, por sentir demasiado e não poder calar. Mas agora, cala-te, José.