Depois de ter esticado a corda até ao limite ao ponto de quase perder a bóia de salvação só para dar um ar de certa graça, fingindo ter um poder de negociação que, na verdade, já morreu há muito (desde o perdão de António Guterres à dívida da Madeira), Alberto João Jardim deverá assinar hoje o misterioso programa de assistência financeira, ou melhor, o plano de resgate desse náufrago que a todos afundou, - o Governo Regional que manda mas já não administra. Parece-me óbvio que por detrás daquela teatralização melodramática, sempre tão bem interpretada, está uma insaciável vontade e a extrema necessidade de recapitalizar o pobre tesouro. O dilema não está no que Jardim vai assinar mas em como vai ele explicar os juros desta 'brincadeira', ou seja, o preço alto das contas públicas que os madeirenses terão de pagar, quando uns já prestam contas à vida e outros se agarram às contas do rosário.

A história da nossa terra é uma lição de vida. Como tal, eu não tenho dúvidas de que este “povo humilde, estóico e valente” terá capacidade para dar a volta às agruras da crise, nem que tenha de voltar a “lavrar a terra” na “rocha dura”, ou que tenha, enfim, de emigrar as suas “mãos calosas” para “além fronteiras”, seguindo as coordenadas apontadas por dedos de mãos balsâmicas que vivem engravatando fatos, agitando bandeiras da ridícula independência insular ou erguendo o indicador em riste para trocar insultos e denunciar “manobras mafiosas para desviar atenções”, enquanto outras mãos enrugadas seguram recibos com despesas de saúde a desesperar pelos reembolsos, ou se debruçam nos balcões das farmácias para aviar receitas ou se resignam com as notícias do fecho dos serviços de urgência nos centros de saúde, ou sucumbem nas listas de espera do hospital.

É verdade que a pressa é inimiga da perfeição, que não há programas justos sem negociação, sem teima, mas também sabemos o quanto este governo tem uma aversão a debates, a procurar consensos e a abdicar para merecer. Mas o que negoceia afinal um governo que, ao longo de 35 anos, militou na escola do poder absoluto, tem mau convívio com a concertação e o pluralismo e chumba quinzenalmente nas cadeiras de assiduidade, de (re)conhecimento e de respeito pela autoridade democrática do povo, deixando vazias as cadeiras do Parlamento, para lamento do mesmo povo que hoje mesmo é chamado a pagar?

Acredito, sim, na capacidade dos madeirenses para dar a volta, mas tenho sérias dívidas sobre se o Governo Regional mudará ao menos 9 graus do seu rumo. O desafio não é assinar um papel, mas demonstrar que o sacrifício valerá a pena. Saberá o governo das adjudicações de milhões de euros por ajuste directo fazer contas de mercearia? Saberá contar cêntimos e valorizar cada euro exigido aos madeirenses? Terá a inteligência para adaptar o seu programa às prioridades sociais emergentes? Terá coragem para reduzir despesas públicas supérfluas e queimar as gorduras de empresas e institutos públicos? Colocará o reajustamento financeiro ao serviço dos madeirenses e da economia ou servir-se-à dele? Terá o discernimento de inverter a política do “sempre prà frente” para cumprir metas de tesouraria e a redução do défice para 40 ou 50% do PIB nos prazos determinados? Estará ao nível da disciplina financeira exigida às famílias e às empresas? Saberá honrar os sacrifícios exigido a todos mostrando, um dia, que tudo isto valeu a pena? Deixará o governo de ser caloteiro, despesista e incompetente na gestão das contas públicas? Faço votos para que amanhã, quando virar o disco, não toque mais aquela música que põe a Madeira em marcha. Porque quanto mais isto marcha, mais o governo se rebaixa e taxa a Autonomia.