De um lado, o eterno e casmurro Alberto João. Do outro, o novato e vingativo Passos Coelho. No meio, cerca de 260 mil madeirenses que vivem com o coração na mão. É esta a situação política em que estas duas figuras meteram a Madeira. Os dois pensam neles próprios. Os dois esticam a corda até à exaustão. A sensibilidade social, de um e de outro, está ao nível em que as agências de rating colocaram Portugal: no lixo! Pergunto: foi para isto? Foi para isto que um punhado de corajosos fez uma Revolução em Portugal? Foi para isto que outros tantos bateram o pé pela Autonomia? Foi para isto que a maioria dos eleitores deu a Jardim mais uma oportunidade de governar? Respondo: claro que não! Fomos claramente enganados e estamos a ser brutalmente trucidados por interesses mesquinhos, por uma política rasteira e ardilosa que procura desviar atenções dos factos que nos trazem amarrados a esta realidade. E esses são simples: os últimos governos de Alberto João Jardim deram o passo maior que a perna. Pediram a mão e levaram o braço. Morderam quem deu de comer. E Jardim, o mesmo que pode efectivamente gabar-se de ter obra feita, deixou-se enredar numa teia de interesses, que já começaram a cobrar, e que já mandam mais do que ele. Porque a Madeira gastou o que não tinha e escondeu dívida de forma escandalosa. Dito de forma mais clara: O Governo Regional enganou os contribuintes. Enganou-me a mim, a si e ao próprio partido do Governo. Enganou a Madeira e Portugal inteiro. Agora que as coisas apertam, quem nos meteu neste sarilho tenta o salto em frente, mesmo sabendo que em frente está o abismo. A bancarrota. A agitação social. O desespero, que em alguns casos pode ser fatal. Neste duelo tão ridículo como altamente gravoso, pasmo com a estratégia regional.Percebo a jogatana política de tentar provocar uma crise governamental em Lisboa, de pôr o Presidente contra o primeiro-ministro, de colocar portugueses contra portugueses, de agitar as águas do separatismo, de manchar a imagem de Portugal lá fora. Percebo, mas não aceito! Porque em causa está muito mais do que a politiquice quase criminosa que este enredo apresenta. Não aceito que um membro do Conselho de Estado esteja apostado em afectar a imagem de Portugal lá fora, de pôr em causa a estabilidade política nacional, de atentar contra o Estado. Por mais sórdida que seja a estratégia, é a que está em cima da mesa. Entretanto, lá em casa do Zé dos Anzóis ou da Maria dos Anéis - como Jardim às vezes se refere ao povo que o elege - reina a ansiedade. Falta trabalho, falta dinheiro, falta casa, falta pão. Há famílias desesperadas, há jovens sem saber o que fazer, há alguns menos jovens a pensar emigrar, há velhos desamparados, há trabalhadores sem salários e outros a contar moedas pretas. E neste cenário difícil, o mais difícil da minha geração, o que faz a classe política dominante? Brinca à política. Os de cá e os de lá pensam em estratégias para se anularem uns aos outros. E nem uns nem outros têm o discernimento de perceber que estão a aniquilar uma geração. Isto devia ser crime. Devia ser criminalizado o político que pisa a mão do cidadão, que mente deliberadamente, que engana, que joga as pessoas contra as instituições e, infelizmente, parece ser esse o bizarro plano que a Madeira tem para contra-atacar Lisboa. Felizmente, para nós, essa aposta apenas tem cabimento na cabeça de Jardim e de alguns dos seus colaboradores mais seguidistas. Mesmo assim não deixa de ser grave. Atenção que não defendo que devemos comer e calar, nem assinar de cruz um documento que esfrangalha a nossa Autonomia política. Digo apenas que há momentos em que é preciso discernimento e sensatez. Ora, um Governo - um presidente, para ser mais preciso - que aposta na falência da Região que lidera para daí criar agitação social e uma crise política contra o governo do seu próprio País, que admite deixar-nos abaixo do mínimo, que arrasta um problema sério como aquele que afecta a Madeira até ao caos, aceita praticar o que de mais abjecto tem a política. E isso, repito, devia ser crime!