Todos se recordarão da frase bombástica pronunciada por um responsável do Governo Regional enunciando que a Troika não mandava na Madeira e, como se tratava do titular da Saúde, permitiu-se acrescentar que «as taxas moderadoras não seriam aplicadas na Madeira». Tudo ao contrário, como é sabido, mesmo que os termos da decisão relativa às ditas taxas sejam disfarçados por um qualquer «contributo do utente para a gestão do sistema regional de saúde». Mas, o que fez o dito responsável, pediu desculpa ao eleitorado a quem ouvi dirigir-se em várias ocasiões no concelho do Porto Moniz, em plena campanha eleitoral para as eleições de 9 de Outubro passado, insistindo nessa mesma tecla? Acresce que o mesmo responsável chegou a afirmar que o designado membro do «governo sombra» do PS para a área da saúde fez falir, enquanto director financeiro, a SIRAM, cujo dono, sob outro chapéu empresarial, beneficiou de um ajuste directo no concurso para as festividades do Fim do Ano! Não será altura dos políticos se responsabilizarem pelas afirmações que fazem em campanha, e não só, e pelas insinuações, quando não acusações directas, que fazem aos seus adversários sem qualquer fundamento? Mas, pior ainda que a afirmação citada, foi a gestão de prioridades de um Governo que privilegiou a lógica do betão (parece que deu votos) sem a observação de critérios de rigor na aplicação e na utilidade no destino a dar a certas obras, em detrimento da atenção às políticas sociais que o problema das taxas moderadoras e da comparticipação dos medicamentos foi uma inevitável consequência, como reconheceu o próprio Secretário das Finanças. E não se venha aqui culpar o Governo da República ou a falta de solidariedade do Continente (que se manifestou claramente a 20 de fevereiro de 2010) porque a responsabilidade foi de quem gastou o que não tinha sem atender às regras elementares da Contabilidade Pública que obriga a que só se lancem obras (ou outras despesas) havendo cabimento orçamental, o que não terá sido o caso, pelo resultado a que se chegou e que justificou a intervenção da Troika. Mas, aqui, vale a pena também referir o papel dos Bancos e das Construtoras que foram cúmplices na escalada de endividamento porque dela beneficiaram acreditando que o aval governamental era melhor do que qualquer seguro de crédito! Enganaram-se e enganaram-nos com a ilusão do sucesso que os responsáveis públicos se encarregavam de apregoar. É verdade que também ao nível do país as coisas não correram muito melhor mas uma coisa é reconhecer este estado de coisas outra é não admitir que a Madeira não foi preparada para uma autonomia económica baseada no desenvolvimento dos seus recursos endógenos, materiais e humanos, valendo-se da iniciativa privada e das competências da sociedade, dentro e fora da esfera governamental. O pior, de tudo, é que lá se foram os meios e as oportunidades, e agora, até quando? Por agora, manda a Troika…

Nuno Jardim Fernandes, Gestor