Sobretudo em tempos de dificuldades económicas, a investigação científica e tecnológica não costuma ser brindada com qualquer reforço de investimento. Já em situação normal, as actividades no domínio da ciência padecem de escassez de recursos específicos pelo que, é natural que, perante outros sectores com necessidades mais básicas e prementes, não se vislumbrem céus coloridos nos próximos tempos. A comunidade científica terá que se mobilizar e tomar iniciativas que possam ajudar a garantir o seu desempenho, quer na prestação dos serviços normais de assistência técnica, gestão dos recursos naturais ou na regulação e monitorização qualitativa e normativa das actividades socioeconómicas, quer nas intervenções mais inovadoras e competitivas, integrando-se em redes nacionais e internacionais e participando na formulação de novas soluções para problemas à escala local, regional, nacional e global. Esta equação, sendo pacífica, propõe dois modelos de resolução, já não tão serenos em termos de execução, sendo que, num dos casos, pode levar à perda de capacidades e oportunidades e, no outro, a uma verdadeira reengenharia do modo como hoje a Madeira gere os seus recursos humanos, financeiros e infraestruturas afectas à investigação e desenvolvimento. A primeira solução, de continuidade, diga-se, fica-se pelo lamento da maioria que nem consegue meios para os reagentes mais básicos ou equipamentos simples ou sequer as assinaturas das revistas da especialidade e pela pujança, dos poucos que, por mérito próprio ou por questões conjunturais conseguiram programas de visível excelência (à partida) mas, cujos sucesso efectivo tardará a se submeter a avaliação, se é que algum dia tal se fará. No segundo caso, a lógica seria a de se conhecer de forma exaustiva e rigorosa as competências existentes, as infraestruturas e valências, os programas e projectos, os seus objectivos e capacidades e a (se existente) ligação de tudo isto aos objectivos de desenvolvimento regional a médio e longo prazo. Dessa inventariação e respectiva avaliação deveria resultar uma reformatação que, tal como noutros sectores, também identificaria redundância de sistemas de gestão, de despesas multiplicadas, de desperdícios e de falta extrema de sinergias que não são aceitáveis, de modo algum, numa região se grandes recursos. Dessa avaliação, resultaria também a evidência das distorções que o actual modelo (não só regional) provoca ao nível da diminuição do tempo efectivo que os investigadores e técnicos dedicam à ciência e investigação. Estão transformados em gestores de ciência sem o serem, em gestores de projectos sem o saberem e passam uma significativa parte do seu tempo em tarefas que não de investigação, o que poderia facilmente ser mudado pela existência de uma efectiva plataforma comum de gestão de fundos e projectos. Não se trata de meter mais dinheiro no sistema mas sim de promover a sua eficiência e o seu efectivo alinhamento com as prioridades de desenvolvimento regional. Claro que não se propõe a eliminação da dita investigação "pura", a qual também deve ser uma prioridade da própria estratégia de desenvolvimento regional. O que se propõe passa por um pequeno conjunto de princípios simples: a) definição de áreas prioritárias, alinhadas com o desígnio e modelo de desenvolvimento da região; b) reorganização e formatação em rede das infraestruturas e recursos técnico-científicos; c) resultante dessa reorganização, a criação de uma plataforma integrada de gestão dos recursos financeiros afectos à investigação e dos projectos, sejam estes correntes ou programáticos; d) criação de sistemas de incentivo e participação em redes internacionais de interesse para o desenvolvimento regional; e) promoção da participação dos agentes sócio-económicos nas actividades de ID&T. A dúvida não está sequer ao nível da disponibilidade de meios financeiros. A questão essencial passa por saber se algum dia será definida uma estratégia regional integrada para a investigação científica e se a comunidade científica está interessada em prescindir da tradição individualista em prol do bem comum e do verdadeiro conhecimento científico como contributo para desenvolvimento da sua região. Caso persistam dúvidas, é só fazer contas do que tem sido o enorme investimento em actividades e infraestruturas técnico-científicas nos últimos 20 anos e procurar, projecto a projecto, quantos e quais contribuíram minimamente para alguns dos objectivos de desenvolvimento da RAM. Para além de ser um interessante exercício científico em si mesmo, dele resultariam algumas surpresas interessantes.
António Domingos Abreu