O naufrágio do ‘Costa Concordia’, como todos os desastres ou incidentes graves que envolvam meios de transporte ou de alojamento no turismo, terá um impacto assinalável no sector. Por agora é bem difícil de prever ou avaliar. Contudo, existem elementos que permitem analisar a situação sob uma perspectiva da influência do desastre na indústria dos cruzeiros marítimos que, nos últimos 20 anos era uma das que melhores índices de crescimento registava. No ano passado o movimento de passageiros a bordo de navios de cruzeiro na Europa cresceu 9% com um impacto de 5,5 milhões de clientes. Os números têm uma dimensão quase inacreditável se considerarmos os registos internacionais. No início dos anos 70 do século passado o movimento anual de passageiros em navios de cruzeiro era de cerca de meio milhão. Em 1990 esse número subiu para cinco milhões e em 2010 aproximava-se vertiginosamente dos 20 milhões. A primeira reacção do mercado, patente nos últimos dias através da análise de empresas especializadas, é de que poderá não se registar um movimento negativo, dado que o grande crescimento dos últimos anos levará a uma absorção dos desistentes, mantendo-se a média dos últimos dois anos. Uma segunda reacção do mercado poderá apontar para a manutenção das clientelas habituadas a viajar em navios de cruzeiro, que são verdadeiros apaixonados por este tipo de férias, e que sabem que o que se passou com o navio italiano se tratou de um acidente que não é frequente, pois conhecem bem as medidas de segurança que são exigidas e praticadas nos cruzeiros em que já viajaram. Uma terceira reacção poderá ser um adiamento por parte daqueles que nunca fizeram um cruzeiro e que estavam a pensar realizá-lo nos próximos dois anos. No entanto, há alguns factos que merecem alguma reflexão neste momento. A eventual culpabilização do comandante e/ou de outros oficiais superiores do navio poderá diminuir o risco quanto ao futuro da Costa Cruises e do negócio dos cruzeiros em geral. O mau desempenho da estrutura de comando do ‘Costa Concordia’ ficará como um acto isolado, o que já parece ter sido assumido pelo próprio armador, e que cairá bem no conjunto das companhias de navegação que integram a indústria. Contudo, para nós, a questão não está apenas na culpa ou na acusação criminal do comandante. Há factos relevantes e muito graves que permitem agora lançar questões pertinentes e de grande importância para o futuro dos cruzeiros marítimos: até que ponto os mega transatlânticos, dada a sua dimensão e população portam um maior risco nos casos de evacuação ou de prestação de socorro e que treino têm as tripulações, recrutadas em países de Terceiro Mundo, por ser mão-de-obra mais barata e mais ‘dócil’, estão treinadas para lidar com situações de pânico. Nos últimos 20 anos os transatlânticos transportaram cerca de 90 milhões de passageiros com um recorde de segurança. E tudo cresceu. Numa economia de escala a dimensão do projecto ajuda a diminuir os custos do produto, assim como as despesas com pessoal permitem uma maior rentabilização. Desta forma se popularizaram os cruzeiros marítimos. O modelo poderá não ser o melhor ou mais indicado, face ao que aconteceu. Os navios de menor capacidade apresentam menor risco e permitem uma melhor gestão em situações de pânico, como aquela que foi registada no porto da ilha de Giglio. Por outro lado, todos sabemos, que os riscos aumentam ou as coisas poderão sair mal, quando se começam a fazer concessões nos aspectos relacionados com a segurança ou com as boas práticas, em ambientes que estão extremamente regulamentados e, dessa forma, sujeitos a procedimentos obrigatórios e exigentes, em que um qualquer desvio poderá colocar tudo em causa. Esperemos que este acidente seja uma lição, que os constrangimentos e a dor agora provocados, sirvam para estudar e aplicar melhores soluções e maior segurança e confiança para todos: companhias, passageiros e tripulantes.