A crise dá para tudo. Serve para aumentar impostos, para taxar serviços, não pagar a fornecedores do Estado, adiar obras, promover despedimentos e até para, aplicando a agenda neo-liberal selvagem de Passos Coelho, concretizar o ataque mais violento aos direitos dos trabalhadores, desde o 25 de Abril. Um verdadeiro atentado, promovido por um Governo que não tem a mínima sensibilidade social, por mais que tente vender o contrário.

Ontem, quando escrevia este texto, ainda estavam a ser negociadas as alterações ao código do trabalho que vão facilitar o despedimento, reduzir as indemnizações e levar ao pagamento de salários mais baixos. Tudo, como dizia o ministro que quer que o tratem só por Álvaro, para promover o crescimento económico e a produtividade. Por mais que me esforce, não consigo perceber como vamos aumentar a produtividade e o emprego, facilitando despedimentos. Em Portugal, não percebo.

O ministro, que veio de uma universidade do Canadá, de Vancouver, esteve emigrado muito tempo, certamente. Ou então nem chegou a viver por cá. Num país que tem raros empresários e um número tristemente grande de patrões, estas leis só vão facilitar os emagrecimentos das empresas. Sobretudo daquelas que são sistematicamente descapitalizadas para pagar o Mercedes novo do patrão e a viagem com a amante. Não vão servir para criar mais postos de trabalho, vai fazer aumentar o desemprego e a pobreza. E nem vai ajudar os patrões amigos do Governo.

O Álvaro, que até agora teve como ideia mais emblemática do seu ministério a internacionalização do pastel de nata - curiosamente já havia uma empresa fazê-lo -, ganhava muito em aprender alguma coisa sobre o país a que se destina a sua governação. Não se limitando a ouvir os empresários do costume e os teóricos das universidades, mas olhando um pouco para a vida do português comum. Aquele que vive do seu trabalho e não percebe que mal fez para ter um ministro e um Governo que manifestamente não gostam dele.