Cultiva-se desde há alguns anos neste país a ideia de que quem pretende investir ou tem espírito empreendedor é uma pessoa de quem se deve desconfiar, pois logo pode ser um explorador ou um indivíduo sem princípios que, apenas, pretende o melhor rendimento para os seus investimentos ou a melhor viabilidade para as suas ideias e, consequentemente, para as suas empresas e para si próprio. Esta avaliação, quase uma certeza para os que nada produzem e se ocupam a deitar abaixo os que na sua cabeça guardam canto para pensar, tem sido um estigma atravessado na vida dos portugueses, depois de um “nem por isso” conturbado período revolucionário e depois de uma certa filosofia de esquerda se ter implantado após 25 de Abril de 1974. Era uma esquerda que se constituiu determinada, mesmo obstinada, e confiante de que o caminho era o que configuravam os seus líderes e que tinha de ser percorrido no futuro. Assentava em ideais vindas de fora, que cativavam os mais cultos, os que tinham melhor instrução e uma faixa do proletariado em zonas de maior pobreza e mais expostas à exploração dos latifundiários e senhores da terra. Na esquerda nasceram forças que foram beber os seus programas nos protestos dos anos sessenta que mexeram com a Europa, sobretudo na França. Em Portugal a situação foi bem aproveitada depois de 1974 por forças até então clandestinas, mas que tinham feito o que agora, com alguma piada ou alguma saudade dos tempos de escola, se designa por trabalho de casa. Tinham sido educados nos catecismos da cultura e da prática comunista pró-soviética dos anos sessenta e setenta, e os simpatizantes cresceram como papoilas em seara aberta. Acabaram por arrebatar uma juventude que vivia num país cinzento e que fugia a salto para não bater com os costados na guerra colonial, de onde, todos sabiam, muitos não regressavam ou chegavam traumatizados ou incapazes. Foi um tempo interessante, em que se permitiram todos os excessos, de uma participação e vivência necessárias, que permitiram escolhas, amadurecimento e opções claras quanto ao futuro de cada um. Mas, se é verdade que 40 anos depois o espectro político-partidário está estabilizado e as noções de direita, centro e esquerda perfeitamente enraizadas na cabeça dos portugueses, a verdade é que continuamos a não ter grande noção da importância da economia e do mercado, preferindo antes andar ao sabor das vagas e do aproveitamento que os políticos de turno dela fazem. Nenhum investidor me passou procuração, nem sinceramente a pedi ou pretendia, mas vejo-me impelido a concordar com alguns dos empresários que, neste sentido, acham que os trabalhadores portugueses, muito ávidos dos seus direitos, e é bom que o façam, colocam em causa os projectos e as alternativas dos homens e mulheres que fazem girar, movimentar e crescer os mercados. Os interesses de cada um determinam sempre as leituras que se fazem em qualquer processo. Mas é demais ouvir-se falar que alguns empresários portugueses ganham espaço fora do país e com iniciativas interessantes, quando por aqui a burocracia e o demasiado corporativismo das instituições de classe e os próprios sindicatos lhes fazem a vida difícil. É tempo de olharmos à volta e fazer parte das soluções que se podem aplicar na economia portuguesa, porque fazer parte do problema penso que já fazemos há muito tempo, mesmo antes do naufrágio das finanças nacionais e de alguns empresários estarem a levar para fora o que resta deste País. Não compete aos trabalhadores e operários portugueses se vergarem à pressão do capitalista explorador ou do patrão desumano, mas compete a todos os portugueses ajudar a encontrar um caminho novo, de forma a que de um lado a riqueza não murche ainda mais e do outro cresça o número de subsidiados de um Estado que se afunda acompanhado pelo som estridente dos protestos na bucólica paisagem de um país parado pelas greves que, infelizmente, podem contribuir para que a democracia resvale para o interregno que Manuela Ferreira Leite, em tempos, inusitadamente sugeriu… É preciso pensar diferente, é necessário entender que a solução está também nas nossas mãos, se o Governo conseguir tratar-nos a todos como cidadãos. Porque a perseguição que hoje somos vítimas e o assalto constante às nossa magras carteiras por parte de todos os cobradores de taxas, impostos e outros emolumentos, em nada ajuda os que querem pensar positivo ou trabalhar com a abertura que os tempos exigem. Elegemos governos, com os nossos votos, para tomar conta do país e gerirem uma nação, não para nos chupar até ao tutano no tempo de cada uma das suas legislaturas. Isso está a acontecer.