Um amigo do continente questionava ontem se a EDP já teria adoptado o fuso horário da China porque nas Laranjeiras, em Lisboa, não havia luz pública. Respondi-lhe que por estes lados, apesar de a EEM ainda iluminar a Rotunda da Autonomia, é escassa a clarividência pública. Apesar de ter rebentado fogo-de-artifício nos primeiros minutos do ano e de a estátua permanecer ali, pedra e cal, impávida e serena, os Reis Magos zarparam mais cedo do passeio da Avenida Arriaga talvez porque a estrela guia ofuscou, talvez porque já não há ouro que pague a dívida, mirra que desperte o governo ou incenso que cure o povo. Não há luz ao fundo do túnel da sustentabilidade financeira capaz de inverter a constante prevaricação das prioridades políticas, a abominante aversão da responsabilidade e a suprema dependência pública face ao sobreendividamento. O que nos resta desta autonomia (política) é algo tão excêntrico e efémero quanto um Carnaval de três dias. Enterrados que estão mais de 2 mil milhões de euros em obras públicas e privadas inacabadas e que colocam o investimento público e privado em alerta laranja. Talvez um dia, vamos contar as pedras, uma a uma, do aterro do Funchal, que é, por assim dizer, a zona das Laranjeiras da Madeira, a nossa zona sombria em todos os níveis.

No Caniçal, o relojoeiro suíço Swatch deixou de marcar horas certas na Zona Franca da Madeira, decidindo emigrar para fixar os ponteiros em novas oportunidades. Também o maior produtor mundial de aço decidiu trocar de casa e selar portas no domicílio fiscal de um país europeu bem mais rico e menos moralista do que Portugal, que se dá ao luxo de deixar partir empresas que deslocalizam milhões de euros por tributar, simplesmente porque se entendeu que equidade fiscal é um mal universal, mesmo não sendo.

A venda de património e a privatização das empresas de capitais públicos é uma solução admitida pelo Governo Regional para libertar-se do passivo e para cumprir as metas de redução do défice. Na Quinta Vigia já se começa a equacionar, entre suores frios, a eventualidade de oferecer um banquete a Cao Guangjiang e à sua ‘China Three Gorges’, que entrou em Portugal pela porta da EDP, injectando 2,69 mil milhões de euros, mil milhões acima da cotação das acções em bolsa. Era preciso rezar muito para que ninguém se lembrasse de folhear a triste história política de um passado recente, onde um governante cá da terra convidou os chineses a regressarem a esse país maldito que ousou inverter a lógica da conquista e da epopeia dos Descobrimentos. Ponham-se na alheta! Por cá, não faltariam candidatos, entre os fazedores dos programas eleitorais ‘copy paste’ do laranjal que se perfilam à imagem de Eduardo Catroga, nomeado "com naturalidade" por Passos Coelho para ganhar 639 mil euros por ano como presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, acumulando o salário com uma pensão de 9.600 euros mensais. Para estas coisas há sempre um cantinho no cabimento orçamental sem que ninguém questione a imoralidade ou a equidade de sacrifícios, temas que há tão pouco tempo, foram tão caros em Belém. Pede-se aos jovens para emigrar para que alimentemos isto: "jobs for the no shame (old) boys"? É mesmo para ficar de olhos em bico...