Tenho constatado uma tal profusão de associações de desenvolvimento que me atrevo a sugerir mais uma: a Associação de Desenvolvimento Para Dar Mais Votos ao Partido Social Democrata (ADPDMVPSD). Assim mesmo, com tudo lá escrito. Às claras. Seria mais honesto do que usar a mão estendida de quem precisa, para lhe dar uma telha e um balde de tinta com uma mão e uma lapiseira do PSD com a outra. Sinceramente, acho isso uma manifestação despudorada de respeito para com os mais necessitados. Dir-me-ão que essas associações não devem parar apenas porque há eleições. Direi eu que ouço todos os dias desculpas mais credíveis do que esta esfarrapada e infeliz justificação. Dizem os brasileiros, com piada: "Tem pai que é cego". Digo eu, sem piada, que tem madeirense, muito madeirense mesmo, que é cego. Mas não não todos. Tomar por tolos todos os que pensam pela sua própria cabeça é um erro que pode sair caro. É evidente que estas acções beneméritas são importantes. Sei que são feitas voluntariamente. Sei que envolve trabalho e dedicação. Sei também que a oposição anda adormecida e não se mete em nada do género por acreditar que não teria sucesso. Sei ainda que essa falta de ambição ou de vontade se confunde com um certo conforto que nunca compreendi. Por fim, sei também que não se pode generalizar. Que nem todas as instituições destas se limitam a estender o tapete ao Poder e tirar a cadeira à Oposição. Que nem todos se limitam a fazer o frete. Mas a verdade é que, salvo honrosas excepções, a maioria destas instituições públicas anda numa azáfama eleitoral maior do que vivem os candidatos do PSD. São telhas e tintas entregues agora por uma estranha coincidência que dá um jeitão eleitoral. São as Juntas de Freguesia que, por uma coincidência ainda maior, se lembraram agora dos mais velhos e os levam a passear, sugerindo, como quem fala do tempo, que é importante votar no partido das setas para o céu. São as Casas do Povo que acordam para os cursos de formação. São as sociedades de desenvolvimento que anunciam hotéis como se fossem entidades privadas. São algumas câmaras que se lembram de actividades de duvidosa qualidade mas que servem para lá levar o presidente do PSD com o seu ridículo palhinhas posto na cabeça de onde já surgiram muitas e boas ideias. São as empresas municipais que apresentam actividades e festas e festivais. Até a agricultura se sujeita a este regabofe com as festas para tudo o que a terra dá e as recomendações dispensáveis da associação. São os clubes madeirenses que se mexem nesta altura mais um pouco, a ver se depois cai mais um pouco nas contas dos jogadores brasileiros. São algumas ordens às ordens de quem manda. São empresários a fazer obra com muito custo e sacrifício pessoal e a entregá-la de bandeja para o presidente inaugurar investimentos onde nem lá meteu um tostão. E há muito mais neste jogo da trapaça que são os meses que antecedem as eleições na Madeira. Todas as eleições. Assim, não. Assim é gozar com o freguês, com quem sofre na pele as dificuldades diárias e se ilude por um punhado de areia, (que lhe é atirada aos olhos), por uma palete de telhas ou uns sacos de cimento. Que por muito jeito que lhes façam, não é mais do que a obrigação de entidades que recebem para dar. Que não fazem mais do que o seu dever. Ou melhor, até fazem bem mais do que é seu dever; fazem uma descarada campanha eleitoral que vicia as regras do jogo. É claro que tudo sob o manto da maior transparência, tudo às claras. Tão às claras e transparente que chega a ser chocante ver o papel a que alguns se sujeitam para manter um cargo. Mesmo que tenham de inventar eventos, mesmo que tenham de receber ordens directas e humilhantes em público, mesmo com tudo isso, há sempre alguém que se agacha. E são sempre poucos os que resistem. Aos beneficiários dos passeios, das festas, das telhas e das tintas digo o mesmo que digo aos que vão em comezainas: recebam tudo. Façam bom proveito da solidariedade. Mas escusam de se vender por isso! E a quem se deixa utilizar desta forma despudorada sugiro a tal Associação de Desenvolvimento Para Dar Mais Votos ao Partido Social Democrata. O efeito seria o mesmo, mas seria mais honesto. Assim, repito, não. Assim, cheira a chapelada!