"Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". O ditado popular sintetiza o Portugal destes dias, governado "a meias" com o FMI. A ideia de criar uma taxa extraordinária ao nível do IRS para as grandes fortunas, e que o Governo se prepara para aprovar, pode ser popular mas é inócua. O que o Estado deveria arrecadar de impostos, e não consegue, passa por milhares de contribuintes que não cumprem a sua obrigação fiscal. E não por uma centena de fortunas que geram emprego. Mas a génese desta medida, nestes dias onde todas as ideias para aumentar a receita parecem positivas e populares, remete para os cidadãos a ideia de que é possível aproximar os rendimentos entre as classes sociais. Aumenta a ideia de que vai criar maior igualdade entre as classes sociais, o que não passa apenas de um sonho. Mesmo muito tempo depois de Marx, é fácil constatar que as classes sociais existem e continuam a ser perpetuadas. Persiste hoje uma continuação de mecanismos de selecção, exclusão e distribuição de poderes que separa os favorecidos dos que não o são. São mecanismos mais ténues e subliminares do que no passado, com o intuito de estimular a ideia de que as sociedades evoluem de forma mais igualitária e de que a maioria dos cidadãos pertence a uma "classe média". Os mecanismos de exclusão, perpetuados pelas elites, tendem a manter privilégios através do poder das influências, da ascendência social e, em última análise, através do capital. Julgar que um dia será diferente é um engano. A luta de classes é da natureza humana. E o devir histórico continua, incessantemente, a demonstrá-lo.
Luís Sena Lino, Consultor de Marketing