A ideia de que o universo desportivo foi pensado para os homens, enquanto dirigentes, praticantes e adeptos é, ainda, muito actual se bem que no início do século passado já se sentia a tendência de incluir a mulher nestas andanças, típica e preferivelmente masculinas, deixando o seu papel desportivo de exclusividade a actividades delicadas e menos violentas. Em 1926, a festa náutica organizada pelo Nacional relançava o debate quanto à visão conservadora e tradicional que atribuía à mulher o papel de dona de casa, de esposa e de mãe. Em 1917, Francelina Campos seria votada como sócia correspondente do Marítimo em Lisboa. Nestes primeiros anos do futebol insular, a presença feminina na assistência de eventos desportivos começava a ser solicitada e promovida pois acreditava-se que, com o elemento feminino, o espectáculo de futebol tornar-se-ia mais civilizado e jogado com energia e correcção. Se era assim há 100 anos por que razão, ainda hoje, estranhamos ouvir uma mulher a discutir estratégias, substituições, polémicas e contratações? Porque razão o seu espaço no mundo futebolístico limita-se a um papel supérfluo de eleger o "jogador mais bonito", de entrevistar e dar a conhecer as suas casas e famílias e de ter uma curiosidade cor-de-rosa sobre o mundo das estrelas do futebol? Hoje os estádios tendem a receber famílias. Famílias completas e não apenas homens e seus filhos, também eles homens. Hoje são cada vez mais as mulheres a opinar e a discutir futebol, a comentar e a reprovar comportamentos menos civilizados, a defender e a dinamizar o rectângulo do jogo com cânticos, gritos e apupos e a ocupar lugares que até então seriam, privilegiadamente, masculinos. Por isso, aprendam a viver com essa realidade e não menosprezem o papel feminino que (infelizmente para muitos) não se resume, como até o século passado, ao espaço acanhado que ia da sala de costura até à cozinha.

Andreia Nascimento - Directora de Comunicação