O episódio protagonizado pelo deputado municipal Eduardo Welsh, que interrompeu o discurso do presidente do Governo Regional na sessão solene do 503.º aniversário da cidade do Funchal para expressar a sua indignação perante o tom partidário da longa alocução do Dr. Jardim, que ali estava na qualidade de convidado, caminhava para ser mais um de muitos incidentes políticos, legítimo e natural na pobre democracia da Madeira.

Mas o tal episódio político acabou por assumir uma outra dimensão e por resvalar para outra esfera e para um outro domínio, com a agravante de amputar matéria que diz respeito a direitos, liberdades e garantias. Assim foi a partir do momento em que dois polícias convidados - ‘simplesmente’ o número dois e o número três na hierarquia do Comando Regional da PSP, e que não eram mais nem menos do que os oficiais do Exército, da Marinha ou do que outro representante, com ou sem farda, de uma qualquer instituição convidada ali presente - entenderam ‘fazer-se da casa’ e transformar a inusitada advertência do deputado municipal da oposição num ‘thriller’ policial.

Sequestraram, por breves minutos, a competência e a iniciativa que são exclusivas do presidente da Assembleia Municipal do Funchal e atropelaram, sem pedir licença, o respectivo regulamento. Assumiram, eles próprios, o papel de mediadores, fazendo de negociadores de conflitos – como se estivesse ali um psicopata, um delator ou um potencial suicida. Muito sinceramente, não vejo outra explicação para aquela descabida e precipitada intervenção, além da vontade em mostrar serventia ao líder do Governo Regional ao tentar silenciar um deputado municipal que, goste-se ou não, está mandatado pelo povo.

Mais uma vez, ficou bem claro, agora aos olhos do país, a quem os audazes oficiais da PSP prestaram um ‘bom’ serviço com este espontâneo e súbito excesso de zelo. Infelizmente não podemos falar de bom senso, de coerência na atitude, na iniciativa e no empenho deste senhores que mandam na Polícia, pois não faltam exemplos, bem recentes até, que demonstram que o sentido de justiça e a igualdade não vivem cá nas ilhas e variam conforme os donos dos palcos, a cor dos intervenientes e a oportunidade das circunstâncias. A propalada legalidade democrática que a PSP fiscaliza acaba por ter demasiados 'dois pesos e duas medidas' para acreditar cegamente nela. E aquele 'policiamento de proximidade' ao cidadão desprotegido caminha para um perigoso e despudorado 'policiamento de aproximação' do poder político.

Talvez seja importante lembrar que o nível de democraticidade de um povo mede-se também pela verticalidade das instituições, pela fidelidade das polícias ao primado da lei e pela impermeabilidade das forças de ordem, de autoridade e de segurança às diversas formas de influência e de pressão. Não por uma Polícia alaranjada domesticável que se envaidece em sessões solenes e festas sociais e se empalidece com as intimidações e enxovalhos públicos de protagonistas protegidos pela esfera do Dr. Jardim.