O Sr. Silva, professor da nossa escola, chamou a criançada à beira da sua secretária e decidiu que vamos brincar ao jogo da Cabra-Cega. É um jogo divertido, todos estão entusiasmados e já antecipam estratégias para ludibriar a Cabra-Cega. A Cabra-Cega não se entusiasma muito com a brincadeira e só se irá envolver quando for chegado o momento de escrutinar os jogadores que estejam dentro do seu círculo. O professor Silva, sem tempo para deitar o olho ao que se passa cá fora, ficou na sala a mexer nos seus papéis. A ausência do professor não impede que o jogo aconteça mas muda completamente as suas regras. É a lei do recreio que passa a vigorar e os miúdos que o dominam já se chegaram à frente para preparar a brincadeira. Não é a primeira vez que participamos neste jogo sem a presença do professor Silva e todos já sabemos como irá decorrer e quem irá ganhá-lo. Os preparativos já começaram, a infeliz Cabra-Cega está a ser vendada e os miúdos que mandam no recreio encarregam-se de a fazer girar umas quantas vezes para que fique bem desorientada. Mas não é tudo. As suas mãos, os seus ouvidos e mesmo o seu nariz não são livres de alcançar qualquer um. A Cabra-Cega sabe que, por vezes, deve fazer vista grossa à informação que lhe chega através desses sentidos que não estão manietados. O Alberto, um miúdo anafado de má educação, não é um concorrente qualquer. A Cabra-Cega que se atrever a desmascará-lo arrisca-se a levar um enxerto de porrada no primeiro momento que for apanhada sozinha num qualquer recanto escuso da escola. Ele é o arruaceiro, é o líder do bullying, como é agora hábito dizer-se. Mas não é corajoso. Se andasse sozinho, borrar-se-ia de medo perante qualquer um dos mais franzinos do recreio. O Jaime, amigo por conveniência do Alberto, como outros, também não pode ser apanhado pela Cabra-Cega. Para além de ser protegido do Alberto, o seu pai é dono de uma mercearia e quem não fizer o que ele quer não prova dos chupa-chupas que ele rouba e trás para a escola. Mas não é só o Alberto e o Jaime, e os seus comparsas, que enganam a Cabra-Cega. Há outros jogadores que utilizam as suas artimanhas para que a Cabra-Cega não descubra quem realmente são. Uma das técnicas mais utilizadas é trocarem de roupa entre si para que, se forem apanhados, a Cabra-Cega os confunda e julgue estar a ler com as suas mãos um outro colega do recreio. No fim, o mais certo será a Cabra-Cega deixar-se levar pelo medo, pelas guloseimas e pela roupagem trocada. A não ser que, finalmente, a Cabra-Cega resolva tomar coragem, tire a venda dos olhos e acabe com a brincadeira.
Hélder Spínola