Penso que ninguém nega que a Madeira mudou muito nos últimos 30 anos. Não há quem não se lembre do tormento que era chegar ao Porto Moniz, a Santana ou subir as Queimadas. Os que andam acima dos 45 anos não esquecem as dificuldades que os pais tinham para comprar uma casa ou pagar o rol da mercearia, quando era só o pai a trabalhar e a mãe era doméstica e quando o médico era mesmo de família e não havia listas de espera e o barbeiro ia lá a casa cortar o cabelo a toda a gente, excepto à dona que fazia a sua permanente na casa da vizinha que tinha os aparelhos todos. No tempo em que não era fácil arranjar 2.5 escudos para uma sandes, um sumo e um bolo na Escola Industrial eno fim da tarde havia quem se encostasse aos canteiros do Apolo a ver passar as "bombas" e as pequenas bonitas e ainda havia alguns que terminavam nos 2H, no Barbarela ou nas Vespas do Ribeiro Seco. Quem não se lembra de levar ou arranjar uma namorada no Joe's ou no Principe Albert, portuguesa ou estrangeira com pêlos no sovaco? Ou das grandes porradas com os marinheiros estrangeiros que se fartavam de beber cerveja?! Da seca que eram os arraiais da espetada e bolo do caco, do vinho com laranjada e das bandas e conjuntos de ocasião, das jogatanas nos campos improvisados na fazenda. Da seca que era andar pela Fernão Ornelas e pelos Tanoeiros para comprar roupa e sapatos nas pequenas superfícies. E os amores dos verões do Porto Santo nos acampamentos "selvagens", as noites no pub Zarco, no Corsário ou no Pau de Sabão, depois dos balanços da Milano ou do Pirata Azul! Dos passeios ao Santo regateando na estrada antes da sidra fresca. Muito mudou. Hoje até irrita a rapidez com que chegamos a qualquer ladonos carros que dão mais de 100 nos túneis todos com o rádio a fazer shshshshs e a obrigar ao CD. Quase todos os bares se chamam Venda e vamos aos arraiais beber poncha e ouvir a "batida" ensurdecedora, está na moda chegar de manhã, mesmo vindo da zona velha. Marcamos consultas para daqui a meses, pagamos balúrdios para chegar ao mar numa ilha. Todos os dias falamos de como os políticos se governam, não vamos à bola porque já não é ao domingo e quase ninguém joga matraquilhos. Tiram-nos parte do ordenado e dos custos das obras só sabemos que derrapam sempre. Cimentaram a fazenda, os miúdos pagam para jogar à bola e já não chegam a casa cheios de terra. Temos tantos canais e televisões em casa, cada um vê o que quer, temos rega automática e quase não usamos o telefone fixo. Não apertamos os atacadores e as meias não sobem do tornozelo. O aeroporto é internacional e a depilação tabmém. Vamos mais ao take-away e os almoços de família passaram a churrascadas com amigos. Andamos à rasca mas publicamos as nossas férias no facebook e desconhecidos fazem like enquanto passeamos no shopping center. Estamos sempre contactáveis, temos campeões do mundo e um presidente muito malcriado que ainda acredita que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço e que quem tem tamanho para "molhar" um carro da polícia pode ser deputado. Estamos tesos mas jogamos no euromilhões, temos teleféricos para lado nenhum e fazemos pontes extra na R. Brava enquanto o pessoal da Tabua desespera. Somos superiores mas não acertamos nos acentos prá frente. Temos clubes à rasca com subsídios atrasados e partidos a receber a horas, empresas a despedir porque o governo não paga e montes de gente que não nega que deve e faz como o governo. Sempre o mesmo, o governo que fez tudo o que é bom também fez tudo o que é mau. Sempre o mesmo tacho, a mesma colher, o mesmo cozinheiro. Mais ninguém entrou na cozinha. Somos únicos, somos madeirenses e temos ilhas cheias de cagarras. Há mais de 30 anos.
Paulo Gomes