"Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje" é uma "máxima" do senso comum. No outro dia ao ouvir uma daquelas conversas de praia que, mesmo sem intenção acabamos por escutar, ouvi a "máxima" ser aplicada num sentido que traduz o pensamento comum num tempo de crise. Nessa conversa uma amiga dizia a outra que ia passar duas semanas às Canárias ao que ela lhe respondeu que como a situação económica naturalmente ia piorar tinha decidido passar as férias em casa e aproveitar as praias da Madeira. Fiquei surpreso com a resposta da primeira: "O melhor é aproveitares ir às Canárias este ano, porque pelo caminho em que as coisas vão, talvez para o ano não o possas mesmo fazer!" Este pensamento relacionado com a gestão que cada um faz das expectativas é um desafio à Economia. Os agentes económicos reagem não só às condições no momento presente mas também, em grande parte, às expectativas que têm sobre as condições que vão enfrentar no futuro. Assim, o consumo presente depende não só no rendimento actual, mas também das expectativas de rendimento que têm para o futuro. Por exemplo, se a expectativa é dos rendimentos futuros serem superiores aos actuais os consumidores tendem a endividar-se. Em sentido contrário, se o rendimento se prevê que vá diminuir no futuro, os consumidores poupam de modo a poderem gastar mais posteriormente; como exemplo temos as poupanças para a velhice. O comportamento deste Verão de alguns portugueses que decidiram gozar o que pensam ser as últimas férias "à grande", parece-me ser contraditório com o que se esperaria numa situação de crise, mas quem sabe sejam seguidores da máxima referida acima e prefiram gozar hoje o que duvidam que possam vir a gozar amanhã. Este espírito de descrença no futuro e de viver intensamente o momento presente tem que ser alterado pois a máxima "perdido por cem, perdido por mil" pode vir a trazer muitas complicações e levar alguns a situações bem mais difíceis do que as que já vivem na actualidade. Será que face à situação económica actual vale a pena não deixar para amanhã?
Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático UMa