«Pouco relevantes». Foi assim, com estas duas palavras, secas e desinteressadas, que um jovem de 19 anos classificou os artigos deste jornal que falam de política. Algo surpreso e desiludido na parte que toca às minhas simples crónicas enviadas desde a metrópole, confesso a minha impotência por não ter conseguido sensibilizar, entre dois mergulhos na Ponta Gorda, o meu interlocutor das virtudes de vivermos num sistema político em que imperem os valores democráticos e o respeito pelas ideias diferentes da maioria. O Tiago, que tem os dias preenchidos pelos estudos e pelo desporto federado, não se sente minimamente atraído pela política e pelos políticos. É «pouco relevante», insistiu, e em nada contribui para a sua felicidade. Não sabe, nem quer saber - e isto é rigorosamente verdade - em que dia se realizam as eleições que vão ditar a renovação do mandado da personagem política que governa com mão de ferro a ilha muitos anos antes de ele nascer. Este jovem e, acredito que a maioria dos jovens, está-se completamente nas tintas para quem ganha e quem perde este jogo que vai ditar o futuro da Madeira nos próximos quatro anos. Na origem deste divórcio está o facto desta juventude não se rever no atual modelo de fazer política, em que reinam os jogos de interesses de todo o género e onde vale tudo para manter os mesmos de sempre nos lugarzinhos confortáveis da administração pública regional. O Tiago está-se a marimbar para os desmandos dos líderes e das suas cenas pouco edificantes e até grosseiras, quer sejam "jotinhas", seniores ou veteranos. Não lhe inspiram confiança. Não se sente representado por quem quer que seja. Pouco se importa se a liberdade de expressão é fortemente condicionada na sua terra. «São todos iguais», atira perante a minha impaciência. Despreza os paupérrimos cartazes de propaganda espalhados um pouco por toda a ilha. As caras não lhe dizem nada. Acha apenas piada ao outdoor do Bloco de Esquerda, inspirado numa clássica marca de azeite… E mais nada. Só as páginas de desporto deste DIÁRIO lhe merecem alguma atenção. Mais relevante que isso só mesmo a internet, o novo refúgio da juventude dos tempos modernos, que representa a sua permanente janela para o mundo. Nesse recanto global a censura é uma palavra riscada do mapa. E que quer, afinal, este jovem para o futuro? Coisas simples. Um trabalho quando acabar o curso, uma casa para viver em paz e sossego, computador com ligação à rede e continuar a evoluir na sua prática desportiva, a sua verdadeira e relevante obsessão diária. Vai votar? Depende do dia (!) e do tempo… E o mais dramático é que como o Tiago, existem outros milhares de jovens madeirenses à margem da política. Quer se queira ou não, altamente relevante para o futuro de todos. Como não podia deixar de ser, regressei à Região para o merecido descanso estival. Durante os primeiros quinze dias de agosto revi lugares, restaurantes, bares e mergulhei neste Atlântico que me consegue emocionar e seduzir eternamente. Os serviços hoteleiros oferecidos na Madeira são de qualidade. Para quem está habituado à barafunda suja de Lisboa, as ruas da ilha estão limpas, os jardins alindados, as gentes são simpáticas e profissionais, os táxis asseadíssimos. Gosto e vou continuar a gostar da minha terra. Mas constato que a sua democracia está cada vez mais debilitada. É patente o medo de se falar livremente no café, na praia ou na esplanada. O jornal pago pelos contribuintes e produzido pelo governo é colocado gratuitamente nas mesas dos cafés e à entrada dos complexos balneares. Em tempo eleitoral a propaganda oficial está ao rubro. O ambiente da cidadania livre está pesado e bafiento na ilha. Que resposta têm os políticos profissionais para os «tiagos» da Madeira? Estamos perante um caso sério, muito sério mesmo.
Roberto Ferreira