Era simples como a taboada dos dois. Assim de contar pelos dedos, mãos e pés. A magia tinha palavra de ordem, senha secreta de imaginação e risos. Faz de conta e já estava. Índios, princesas, polícias, ladrões, heróis e bandidos no mesmo campo de batalha. O quintal, a estrada por onde não passavam carros, o poio ao lado, a rocha mais acima.

Faz de conta e o território era nosso, conquistado e dividido em paz ou em guerra.

Mãos estendidas ao jogo, coração na garganta e no peito, às vezes também na barriga ou nos joelhos acabados de esfolar. Sim, às vezes tínhamos o coração nos joelhos e ainda assim tudo batia a um ritmo certo.

É de saudade que hoje bate a memória, é de desconcerto que se faz a perda do simples faz de conta. Já nada é tão fácil. Não há senha secreta, nem joelhos esfolados, Às vezes até parece que não há coração. Mas só às vezes.

Esse coração bate agora por fora. Sou capaz de o encontrar sempre nas brincadeiras de quem ainda sabe fazer o coração bater certo nos joelhos.

A Sofia, a Teresa e a Marta correm em energia pura. É noite, mas faz de conta... e, pronto, o sol brilha e este restaurante cheio de turistas é na verdade um quintal, quem sabe um poio de bananeiras e segredos.

"Sou um fantasma!" Está dada a ordem. Ainda é possível refazê-la. Ajustá-la, talvez.

"És um fantasma bom?"

Cumprem-se as regras e faz-se o mundo ao ritmo certo dessa negociação de território e realidade à medida.

Nas mãos mais pequenas as possibilidade são grandes. Os problemas de escala não têm as certezas da matemática e da física. Faz de conta e já está. Realidade, palavras, impossibilidades mudam o sentido e a consistência. Adaptam-se como matéria volátil, como o vento nos cabelos e a água a cair dentro do Verão.

Nada é certo, nem para sempre, nem infalível. Nada obedece à ciência e às regras.

As palavras ainda estão todas fora do dicionário e da gramática. Como o coração, batem algures entre a barriga e os joelhos, desconcertadas.

A Teresa, inspirada pela irmã mais velha, recusou-se, um destes dias, a entrar no avião. "Tenho medo das alturas", declarou naquela certeza inabalável de quem declara a única verdade, sem recurso.

Lá vieram as explicações do pai sobre aeronáutica, profissionalismo dos pilotos, aviões de dois motores autónomos. Ciência pura, mas não à prova da sabedoria de ter três anos e o tamanho certo de todas as possibilidades.

"Tenho medo das alturas", voltou a declarar a Teresa, com o coração muito provavelmente a bater nos joelhos.

Em desespero, o pai, certamente inspirado pelo faz de conta de outras idades, disse: "não há problema, as alturas não vão neste avião".

Foi magia. A Teresa seguiu viagem. Um dia destes cresce, mas não para já. Não ainda, enquanto o coração bate fora do peito.

Por agora, e ao contrário do que diz o dicionário, as alturas não são "dimensão de alto a baixo", "elevação acima de um ponto", "altitude", "distância da base ao vértice oposto", "regiões superiores da atmosfera", "céu". Não, por agora, as alturas não andam de avião, pelo menos não embarcam no nosso avião. Ficam no chão a assistir ao nosso voo. Faz de conta?