Dizia Henrique Monteiro no passado sábado, no Expresso, que " nunca este nosso regime democrático se baseou em tanta falta de credibilidade dos seus políticos como hoje. Por isso a mudança de cultura e a criação de novos laços de credibilidade se tornaram tão importantes. Mais do que resolver uma crise (…) o que se exigia do Governo era a reposição da transparência, da confiança, da sobriedade e, como elas, da esperança com que cada um tem de viver os tempos de crise severa. Olhar para o Governo e não ver uma radical mudança dos comportamentos é perceber que não foi percebido o que era essencial perceber." Mais de acordo não podia estar com este ponto de vista do jornalista do Expresso que fundamenta a sua opinião na falta de confiança que continua a aumentar na sociedade portuguesa. De facto "o que mais se esperava de um novo Governo ao qual nunca se pediu apenas uma mudança de pessoas e políticas, mas sobretudo uma mudança de atitudes e comportamentos". Isto torna-nos inseguros e pouco confiantes. Entrámos numa era de insegurança - insegurança económica, insegurança física, insegurança política. A insegurança gera o medo. E o medo - medo da mudança, medo do futuro, medo de estranhos e de um mundo pouco familiar está a corroer a confiança e a interdependência em que assentam as sociedades civis. Muitos de nós querem que os seus líderes e representantes políticos nos protejam: uma vez mais as sociedades abertas serão pressionadas a fechar-se sobre si, sacrificando a liberdade pela "segurança". A escolha já não será entre Estado e mercado, como nos querem convencer os nossos ultraliberais. Cabe-nos, antes de tudo, reimaginar o papel do Governo. Foi isso que pensávamos que iria acontecer. Com a mudança nada mudou, antes pelo contrário, acentuaram-se alguns tiques que em nada abonam a favor do Estado democrático. Já que estamos em dia de citações não posso deixar de citar Francisco Sousa Tavares no artigo do mesmo jornal do último fim-de-semana: "Tivessem sido José Sócrates e Teixeira dos Santos a fazer um décimo das maldades que este Governo já fez aos portugueses em pouco mais de um mês, e teríamos as multidões na rua e a imprensa aos gritos. Passos Coelho estaria a dizer que o despesismo do Governo estava a roubar a riqueza do país e Paulo Portas estaria a jurar que os portugueses já não aguentavam mais sacrifícios." Aliás, o povo esquece rapidamente e os comentadores também; é inútil ter escrúpulos a mais. O que é conveniente é passar por inovador, fecundo e imaginativo, ainda que seja à custa da verdade. Nada mais arriscado do que dar a sensação de mediocridade, de banalidade. A minha experiência política diz-me que o povo exige que o político justifique a sua acção, antes de mais com os objectivos que se propôs e, depois, com o sucesso que obteve. Neste caso, a ver vamos, mas os indícios não são esperançosos. Chateaubriand dizia que " a ambição de quem não tem capacidade é um crime". Hoje, parece comum ver nos políticos apenas arrivistas ávidos por um lugar ao sol. Assim poderá ser, mas compete a muitos de nós resistir e indignar-nos, sem nenhumas concessões à demagogia.

José A. Roque Martins