Luis Guilherme Ferreira Até meados do século passado, desciam de algumas freguesias sobranceiras ao Funchal, homens com cabras para venderem, de porta em porta, o leite ainda quente, acabado de mungir, as pessoas da baixa citadina. Do Caniço, mais propriamente da Abegoaria, saia ainda de noite o Joaquim Ladeira com as suas cabras que atravessavam toda a freguesia de S. Gonçalo para servir os clientes certos da rua de Santa Maria e ruas adjacentes. De vez em quando ouvia-se: '' Quero um litro de leite, mas que seja bem medido para ficar um pouco para o gato''; ''Ó Ti Joaquim este leite tem muita espuma, etc.'' Ao longe ouviam-se os chocalhos e a pequenada (incluindo eu) abeirava-se da estrada para ouvir aquela música tão engraçada e apreciar melhor os animais de variadas cores: pretos, brancos, castanhos, malhados… Depois de acabada a tarefa estes homens reuniam-se numa ''tasca'' na travessa do forno onde trocavam impressões e faziam trocas de animais muitas vezes não envolvendo dinheiro. Com a entrada sempre crescente de automóveis no Funchal e as ruas estreitas não era possível coabitarem, ao mesmo tempo carros e animais. Então a câmara municipal do Funchal fez publicar uma lei no ano de 1945, em que as cabras teriam que estar, ate as nove horas da manhã fora do perímetro da cidade do Funchal. Como era impossível vender o leite em tão pouco tempo acabou-se o movimento dos animais na cidade. Eram outros tempos mas o curioso deste conto verídico era que o homem que levava os animais trazia dois fatos: um era o que levava vestido e o outro era os conjuntos de cabras que designa por fato (substantivo colectivo).