Chico Buarque, na sua habitual lucidez e acutilância, disse em tempos que "as pessoas têm medo das mudanças mas eu tenho medo que as coisas nunca mudem". Nunca estive distante deste pensamento, pelo contrário, mas agora importava reflectir sobre o que falta para a Madeira mudar. Mas mudar já? Peter Drucker lembrava que "a mudança não se gere": "Descobre-se. Antecipa-se. Aproveita-se. Lidera-se". Por isso, cada madeirense tem a oportunidade de descobrir as coisas boas da mudança e experimentá-la de forma saudável e num digno conforto. Infelizmente, há na sociedade madeirense um medo da mudança. A resistência da Madeira em mudar é resultado de um poder que corrompeu os alicerces da democracia e instaurou um regime de medo, perseguição e falta de liberdade. A resistência à mudança encontra fundamentos num controle exercido sobre a sociedade e entre as suas estruturas. O ambiente que vivemos, e como vivemos, é o resultado de práticas e políticas que se arrastam há mais de 30 anos e que roubaram o empreendedorismo, a criatividade, a liberdade e até as bases de sustentabilidade da nossa Região. Mas, será que somos capazes de identificar o que sobra de bom, desta colossal rapinagem da nossa alma e até da nossa dignidade, ocorrida de forma lenta e penosa nas últimas décadas de governação do PSD? Por isso vale a pena fazer a pergunta: temos medo de quê afinal? Temos medo de perder um governo malcriado, ofensivo e insultuoso que nos envergonha mas, sobretudo, nos prejudica porque não é respeitado nem considerado? Receamos ficar sem a aldrabice permanente praticada debaixo dos nosso olhos com o dinheiro dos nossos impostos? Estamos preocupados com a perda da estética brejeira de um governo moribundo mas atrevido e sem vergonha? O receio que nos consome, para arriscarmos a mudança, tem a ver com podermos, de uma vez por todas, acabar com a descredibilização e a palhaçada ostensiva de um governo regional que trata tudo a "pontapé"? Temos medo porque a mudança acaba com as falcatruas e as cumplicidades criminosas, com interesses obscuros, criadas ao longo de 30 anos de Jardinismo? Estamos amedrontados pela mudança porque essa pode colocar um ponto final na destruição do potencial do nosso território e iniciar a sua recuperação? O nosso medo da mudança tem a ver com a possibilidade do fim da mentira sobre o número de pobres, de desempregados, de endividamento. Única maneira de assegurar soluções sensatas para resolver estes problemas? O medo da mudança tem a sua origem na possibilidade de experimentarmos um novo caminho, uma nova ordem regional, um percurso honesto, sério e responsável? Perante isto, já nem estamos a tempo de antecipar a mudança. Estamos no tempo de fazê-la urgentemente!
Carlos Pereira, Deputado do PS-Madeira