Dorisa Drumond Sou uma jovem porto-santense da geração dos anos 80 e recordo-me sempre das histórias que ouvia em criança, sobre a vida dura que os meus avós levavam e como sobreviviam. Histórias de tempestades e das vezes em que muitos rumaram contra a maré, tudo isto em pequenas embarcações denominadas de "carreireiros". Não havia comandantes nem capitães, eram os arrais que comandavam. Eram estes que levavam as embarcações a bom porto, tinham vidas com história, tal como um dos mais emblemáticos carreireiros da nossa bela ilha, o Maria Cristina. Esta embarcação após muitos anos no mar, encalhou na praia, onde permaneceu durante muitos anos, até ser desmantelado e vendido para a Suíça. Um dia, alguém lembrou-se de construir uma réplica deste, a fim de estar presente na Expo 98. Mais tarde regressou à Ilha Dourada, dado que era na altura (hoje não sei) era propriedade do Clube Naval do Porto Santo. Nessa altura faziam passeios de volta à ilha e ainda prestava assistência em provas de vela. Passado algum tempo soube que o Maria Cristina II, estava nos Estaleiros Navais do Caniçal porque estava com uma avaria. Qual não foi o meu espanto quando este mês, estava de passagem pelo Caniçal e encontro o Maria Cristina II. [ver foto 'Flagrante' abaixo] Estava no interior do estaleiro e com uma placa a dizer: "VENDE-SE". Fiquei chocada e senti um desrespeito e desprezo para com os habitantes do Porto Santo e para com a nossa história. Assim escrevo com o propósito de esclarecerem os Porto-santenses e que algum responsável responda a algumas questões: Quem financiou a construção desta embarcação? De quem é propriedade? Porque está a venda uma parte da história do Porto Santo? Fica ainda uma questão no ar, para que cada um pense por si. Daqui a uns anos que histórias existirão acerca do Porto Santo para podermos contar aos nossos filhos e netos?! Noto sinceramente, nestas gerações mais novas que pouco ou nada sabem da cultura da sua terra e as suas raízes.