Estas coisas da cultura podem ser maçadoras. É sempre de bom tom que demonstremos ter alguma. Isso obriga-nos a ler, a ir ao cinema, ao teatro, a concertos, etc. e é aqui que a porca torce o rabo. Várias têm sido as experiências por parte de alguns empresários em criar "bolsas de cultura" dos mais diferentes estilos e que, mais tarde ou mais cedo, acabam por dar com os burros na água. Lembro-me do Jam como clube de jazz (e que saudades tenho) e do Cinemax como sala de cinema de autor e alternativo. Ambos os projectos, necessários numa cidade e numa região que se quer culta, partiram do pressuposto de que havia "público" para essas iniciativas. Mas não era assim! Uma coisa é termos que nos "mostrar" cultos uma vez por outra, outra coisa é a maçada que dá levar com a dita cuja em cima todas as semanas. Não dá! A maior parte das pessoas têm mais do que fazer. Chega-lhes o "Funchal Jazz" e o "Funchal Film Fest", iniciativas que pontuam anualmente o nosso calendário de cultura. Daí ter havido muito quem tenha ficado chateado porque o Rui Veloso não cantou às estrelas do céu o seu reportório habitual e veio para aqui com aquelas coisas dos Blues… E depois isto é tudo cultura importada. Continuamos a ser provincianos q.b., o suficiente para que em nada valorizemos o que por cá se produz e acreditem que se produzem coisas de excelente qualidade. O "On By…" foi disso uma portentosa demonstração. Uma demonstração de talento, de vigor, de bom gosto, de alto nível cultural. O que se está a fazer na recuperação do Núcleo Histórico de Sta. Maria (prefiro esta designação porque velhos são os trapos) é também disso demonstrativo. Não tenho nada contra o que vem de fora mas isso tem que ser visto como um modo de rasgar horizontes e nunca como subserviência!

Nuno Morna, Actor