“Como se pode explicar que haja políticos com casas de 3,5 milhões de euros, no sopé da Acrópole, com mil metros quadrados? Por isso lhes chamamos ladrões, não apenas mentirosos”. A corrupção e o tráfico de influências na sociedade portuguesa não estão assim tão à vista de todos, nem surgem edificados no sopé de uma qualquer colina, mas sem muita dificuldade descobrimos, em pouco mais de 30 anos de democracia, imoralidades monumentais e grotescas o suficiente para perceber que este desabafo de um dos politólogos gregos tem muito de familiar com o nosso tão nobre e pobre país. Sugere mesmo que é ténue a fronteira entre a crise sócio-cultural-estético-ética para a qual Yorgos Papandreou procura sentenciar com as reformas austeras aprovadas no limite do consenso no parlamento de Atenas e a crise da derrapagem do défice económico-financeiro que Pedro Passos Coelho tenta travar desesperadamente dando a ideia de que nós fomos muito além das exigências da troika, só para manter a nossa mais velha nação europeia à tona d’água. Um sinal de confiança que Bruxelas aplaude mas que, para já, tem no esforço da mudança um denominador comum: carga fiscal e mais e corte na despesa a menos.

Ainda ontem, em reportagem pelas zonas altas de Santo António, vi uma diligente carrinha da Câmara em serviço. Chegado ao local, o motorista descansou no banco, dois tristes cantoneiros carregaram ao sol tórrido a maquinaria para a carroçaria e o chefe, identificável apenas pela pose autocrata - camisinha branca imaculada, de mão num bolso e de cigarro na outra, e um bronze de fazer inveja, gritando: “Ah homem, então?!”. No país onde há dois chefes para cada dois funcionários, na nação com mais presidentes de Junta por habitantes, é mais fácil lançar uma carga fiscal generalizada sobre 3 milhões de trabalhadores (além de um imposto extraordinário) para garantir receita imediata do que mudar mentalidades, cortar na despesa e tornar eficiente a pesada máquina que insiste em gastar e manter-nos imundos. Eu não me importava nada em ceder nem que fosse 100% do meu 13.º mês se o Estado fosse capaz de ‘promover’ à produtividade os chefes que nunca aprenderam que deitando a mão a um colega, estão a cumprir o serviço público a um cidadão e a enriquecer uma nação.

Compreendo que é confrangedor, mas se formos a ver bem, a grande diferença entre os dois países – Portugal e Grécia - não está tanto na diferença mas na até então indiferença dos políticos, não no inconformismo (que existe) mas na contenção social e na contenção económica a que o povo está votado. Aqui, estamos mais disponíveis a contribuir para as soluções do que a agudizar os problemas, por menor que seja o ‘rating’ da culpa da classe média. Se Atenas tem nos aeroportos construídos para os Jogos Olímpicos de 2004 dois dos seus grandes buracos, Portugal tem nos estádios do mesmo ano (Euro 2004) parte dos ‘elefantes brancos’. E pensar que ainda nem começamos a pagar juros desta pesada factura e já alguns pseudo-imperadores se mostram tentados a embarcar em novas megalomanias. Se a Grécia paira à beira da falência, estando em permanente restruturação da dívida, Portugal vive sob ameaças e crises de confiança, legítimas ou não, como aquela da agência norte-americana Moodys, que colocou, ainda ontem, o ‘rating’ do défice português para níveis nunca vistos - ‘lixo’.

Mais do que a espécie de ‘encarnação’ dos soldados da batalha de Termópilas que levou 300 jovens espartanos com coroas de louro a protestar contra as medidas de austeridade na Grécia, Portugal terá de travar uma nova Batalha de Aljubarrota não apenas para conquistar à Europa a sua própria dignidade e a sua independência económica-financeira, mas para reformar mentalidades e devolver ao berço aqueles valores que nunca chegaram a germinar, que nasceram apenas para alguns ou que cresceram tortos à sombra de uma figueira.