Quanto mais acompanho o que se passa no País mais chego à conclusão que existe um fio condutor que tem atravessado todos os governos após o 25 de Abril de 1974. Os partidos que se têm alternado no poder, dizem uma coisa quando são oposição, mas, quando chegam ao poder fazem exactamente o oposto. Foi assim com o PS de José Sócrates e está a ser assim com o PSD e o CDS de Passos Coelho e Paulo Portas. Quem não se lembra dos famosos 150 mil postos de trabalho que acabaram com mais de meio milhão de desempregados. Quem não se lembra do que disse Passos Coelho ainda recentemente: "se tivesse de aumentar impostos nunca seria sobre os rendimentos do trabalho". No entanto, a primeira medida que decretou foi a de cortar no subsídio de Natal, com um imposto extraordinário sobre todos os trabalhadores, logo apoiado pelo Dr. A. João que já está ver uma receita para continuar o regabofe. Esta questão pode parecer secundária, mas não é, porque são comportamentos destes que levam à descredibilização da política e dos políticos. O que se ouve nas ruas é isso mesmo. Como analisar este comportamento é um desafio interessante para os estudiosos destas matérias até porque quem diz a verdade é muitas vezes prejudicado. Por um lado as pessoas criticam os mentirosos, mas por outro lado penalizam eleitoralmente os que dizem a verdade. Não querem acreditar que a situação que vivemos é muito grave e que não são com políticas restritivas como esta, que a economia se vai levantar. Não querem acreditar que não vamos conseguir pagar a dívida como foi imposto pela Troika, dado corrermos o risco de, a curto prazo, ficar numa situação parecida à que está a viver o povo Grego. Isto foi visível na campanha eleitoral. Os partidos que diziam que as medidas da Troika eram lesivas para os interesses das pessoas e que as medidas políticas a tomar tinham que ser muito mais radicais e não as de pedir dinheiro para pagar uma dívida que, ainda não sabemos como e para quê foi feita, foram encarados como os maus da fita, os mensageiros da desgraça, atacados pelos comentadores de serviço, muitos dos quais apareceram agora como assessores, deputados e até membros do governo. Muita gente prefere não saber a verdade e prefere agarrar-se a uma qualquer tábua de salvação desde que essa não lhe exija movimentar-se ou fazer muito esforço. Muita gente prefere ficar acomodada a ter que sair à rua e exigir os seus direitos. Quando oiço pessoas a serem entrevistadas a mostrarem compreensão para com este corte no subsídio de natal, das duas uma, ou não recebem subsídio ou então dizem uma coisa publicamente mas depois falam pelas costas, muitas vezes culpando os sindicatos por não fazerem nada, ou os partidos que nada têm a ver com este facto. Esta dualidade, dos que estão sempre a reclamar e a chamar mentirosos aos políticos, mas que, quando é preciso separar o trigo do joio nada fazem, é que tem deixado que a mentira governativa perdure para além dos tempos e que a música se vá repetindo sem que se vislumbre mudanças sérias nos comportamentos de quem nos governa. É por isso mesmo que eles se sentem à vontade para mentir e inventam histórias para continuar a enganar. Sou favorável ao desmascaramento deste tipo de política. Sou favorável a que não devemos cruzar os braços e devemos ir à luta pelos nossos direitos que custaram décadas de luta a conquistar. Aos que dizem que já não vale a pena porque "eles" fazem sempre o que querem eu respondo com o exemplo do 25 de Abril, foi saindo para a rua e lutando que conseguimos. Não conheço outro caminho. PS: Sr. Deputado José Manuel Rodrigues, já que o seu partido está no Governo e dirige o Ministério da Segurança Social, reponha os direitos sociais das bordadeiras de casa, que o Sr. também ajudou a conquistar, nomeadamente a reforma os 60 anos.

Guida Vieira