Para os verdadeiros ilhéus o mar não é uma barreira. É um horizonte que se abre e nega a pequenez da ilha. Retirar o mar a um ilhéu é enclausurá-lo. É roubar-lhe a liberdade, as suas referências. A Madeira com o seu mar, a sua Zona Económica Exclusiva, é uma Região imensa. É maior do que muitos países europeus como a Suíça, a Áustria, a Bélgica, a Holanda ou a Hungria (incluindo na comparação os seus mares, quando os possuem). Apesar do seu valor económico, ambiental e social, aqueles que, escolhidos por nós, governam a Madeira vêem o mar como um caixote do lixo. Foram décadas a massacrar o mar madeirense. Aterros das obras para dentro das ribeiras e para o mar, a mando do próprio governo regional. As terras sobrantes da construção da Via Rápida foram atiradas ao mar. Na costa norte, as terras provenientes da via expresso São Vicente - Porto Moniz também tiveram o mesmo destino. As ribeiras continuam a ser escavacadas e esventradas pelas máquinas do governo, fazendo sangrar para o mar a terra que mata a vida marinha. Ainda hoje, muitas das nossas ribeiras transportam no seu fraco caudal estival muitos sedimentos devido à ausência de boas práticas nas obras de reconstrução nas ribeiras, transformando as águas costeiras num autêntico lamaçal que mantém à distância os turistas que nos visitam. A Madeira está a ficar sem mar. O Funchal, o maior centro urbano e hoteleiro, criou ao longo do tempo uma enorme barreira entre a cidade e o oceano. Os funchalenses para porem um pé na água salgada têm de pagar. Pagam o bilhete para entrar nas zonas balneares da Frente Mar, pagam o hotel para aceder ao litoral privatizado, ou pagam a multa de estacionamento na praia Formosa para aprenderem a andar de autocarro. Para piorar a situação, a baía do Funchal será durante dois anos um estaleiro de obras. A transformação do aterro de inertes num cais de acostagem roubará definitivamente a ligação da cidade ao mar. À volta da ilha a situação não é melhor. Na costa sul, para Leste ou Oeste, a destruição do litoral com terras, esgotos, lixo e enrocamentos persegue-nos. Só nos resta a costa norte da ilha, mais distante em relação aos grandes centros urbanos e com uma agitação marítima mais difícil de desafiar. Ir ao mar na Madeira, apesar de estarmos numa ilha, é uma aventura. É tão difícil que leva muitos madeirenses a apanhar o avião e a ir de férias para outra ilha qualquer.
Hélder Spínola