António Ferreira A nossa região experimentou um crescimento extraordinário nos anos 80 e 90, faltava quase tudo a nível de infra-estruturas, muitas destas foram feitas, e, pese embora, muitas destas ainda estejam por pagar, a verdade é que eram necessárias. Precisamos de ver este crescimento de vários prismas que não podem ser esquecidos. Os anos 80 e 90 caracterizaram-se pelo facto de haver um imenso fluxo de financiamento europeu. A UE financiou grande parte do nosso crescimento em infra-estruturas. Por outro lado, houve um aumento de prosperidade nos nossos mercados de turismo, fazendo assim que tivéssemos a nossa época dourada. Houve alturas que tivemos pleno emprego na região, e incrementos do PIB fora do comum pela positiva. Há quem diga que este crescimento não trouxe verdadeiro desenvolvimento, e não é difícil explicar o motivo desta observação. Um modelo baseado quase exclusivamente nas obras públicas nunca pode funcionar por muito tempo, porque inevitavelmente acontecem três coisas: 1) há sempre um ponto de saturação do território, ou seja, deixa de haver espaço para colocar mais cimento; 2) a construção civil utiliza mão-de-obra pouco qualificada que tem dificuldade em se adaptar a outros sectores; 3) a construção civil suga demasiados recursos que poderiam ser aplicados em sectores transaccionáveis, isto é, o sector da construção não pode ser exportável, enquanto outros sectores o são. Agora enfrentamos um desemprego de cerca de 14% na região (mais de 18000 desempregados), o nosso crescimento económico é nulo ou negativo, e temos uma enorme dívida. O modelo baseado em construção civil está esgotado e já não tem força para resolver estes problemas. Ou seja os problemas dos anos 60 e 70 exigiam soluções que ficaram resolvidas nas duas décadas seguintes, mas agora temos problemas e dificuldades de diferente natureza. Novos problemas, novas soluções são necessárias. Continuar a apostar em obras e mais obras, só vai aprofundar ainda mais as dificuldades. Com um tecido produtivo fragilizado e o turismo debilitado, é contraproducente desviar recursos destes sectores. Temos que apostar na internacionalização dos serviços e na produção de bens. Não será de todo muito difícil fazer esta transição no modelo de desenvolvimento, temos quadros e conhecimentos suficientes, basta que haja vontade política para aplicar este desígnio com bons resultados. Espero que o bom senso impere nas próximas eleições regionais e a discussão do nosso modelo de desenvolvimento seja uma prioridade dos políticos.