Portugal tem um novo governo. Passos Coelho sucedeu a José Sócrates, acometido por usura política, que, por sua vez, rendeu Santana Lopes, vítima das suas intermináveis «trapalhadas». Antes houve ainda Durão Barroso, que voou para a cadeira de sonho da Comissão Europeia, em Bruxelas, António Guterres, que arrumou a trouxa quando vislumbrou o temível «pântano» político que se aproximava, e Cavaco Silva, o chefe do executivo com mais longevidade. Fico-me por aqui, pois são todos democratas, eleitos livremente. A alternância política é em democracia um bem essencial, que demonstra maturidade e serenidade cívica. Mudar de primeiro-ministro é tão normal que já ninguém ousa questionar a liberdade de escolha que lhe subjaz. A estabilidade democrática não se mede pela continuidade dos mesmos rostos nos mesmos palcos. É salutar que exista alternância. Menos confortável é saber que a mudança de rostos nas lideranças governamentais é sinónimo de políticas completamente opostas, especialmente concebidas para deixar a impressão digital de quem as protagoniza. Um velho hábito que teima em não ser erradicado. Contudo, não alinho na análise minimalista baseada em conceitos absolutos mas nada científicos, que dizem que o desenvolvimento só se faz com "estabilidade" e que essa "estabilidade" só se consegue com um projecto "duradouro", de muitos anos e de preferência com maiorias absolutas robustas. Traduzindo por miúdos: só com muito tempo de poder. Na passada segunda-feira dei por mim a pensar em quantas cerimónias de tomadas de posse já assisti no Palácio da Ajuda? Quantos novos ministros e secretários de Estado assinaram o respectivo compromisso solene, perante salas cheias das mais altas forças vivas e institucionais da nação? Excluindo os anos da brasa, do PREC, este tem sido sempre um momento pacífico, com a renovação desejada pelo sábio povo que interpreta de acordo com regras de jogo limpo e imparcial, as potencialidades dos diversos partidos. Agora imagine o ilustre leitor que um qualquer líder partidário da esfera nacional impunha a "lei da rolha" aos seus colaboradores e apaniguados? Que não proíbe, mas aconselha (este conselho só pode ser mesmo um eufemismo) a não falarem a certos jornais, estações de televisão ou rádios? No continente, mesmo em casos de interferência governamental no alinhamento de telejornais de certos "media" ou no polémico episódio que envolveu o antigo chefe do governo, José Sócrates, e a TVI, nunca deputados e outros dirigentes se recusaram a falar com esse órgão de comunicação. Para tudo na vida há um limite. Quando se sai da órbita do razoável, do bom senso, perverte-se as regras elementares da democracia. Nada é eterno. Não há homens providenciais e os insubstituíveis residem todos no sítio que bem sabemos. Estamos sempre a aprender com novas realidades, com novos gestores e com novos políticos. São as denominadas novas etapas. Todos os países, todas as regiões, municípios e freguesias precisam delas. Por mais que me esforce não consigo transpor para o continente a mais recente polémica na Madeira que condiciona a liberdade de se escolher que órgão de comunicação devemos consultar. Lá dizia o velho Churchill, que a «democracia é o menos mau sistema político de todos». Provavelmente, em algumas regiões que conhecemos urge abrir as janelas do edifício democrático, para fazer circular um novo ar que combata o bafio que se acumula.
Roberto Ferreira