Seguremos um pedaço de terra e água e construamos-lhe a imagem. Na posse da imagem, edifiquemos um corpo com uma alma e logo de seguida delineemos uma existência e a sua relação com todos os seres vivos da terra, do ar e do mar. O princípio está definido e agora bastará pôr em acção Eu creio que isto de ser actor ou artífice de qualquer área relacionada com a representação de pedaços de vida, como objecto de arte, nada tem a ver com a postura normal da existência de cada ser humano. Desde o seu nascimento o ser humano começou a representar o papel que lhe foi possível no espaço deste nosso mundo, conforme as informações que lhe foram transmitidas dia após dia na sua labuta de existir ou de sobreviver. Ora, no palco do palco verdadeiro, isto é, o da cena onde os artistas trabalham gestos, expressões, sons, ideias, conceitos e engendram histórias, a vida decorre de outra maneira e não há que confundir arte com vida. Para os seres mortais a vida das suas personagens é um dom do universo, para os artistas a vida das suas personagens são dons artísticos, que têm que ser trabalhados. Sim, porque os artistas trabalham. Apesar de continuar a existir quem confunda tudo. O que realmente desagrada aos artistas são aqueles que querem mostrar que percebem do mundo da arte quando os mesmos nem percebem do mundo dos mortais porque se percebessem, respeitariam muito mais os artistas e verificariam que a arte não pode ser analisada à luz de cifrões, como diríamos no século XX. Tudo isto, vem a propósito de encontrarmos na nossa sociedade indivíduos que deveriam dedicar-se a utilizar os seus dons em áreas que nada têm a ver com a dos artistas em vez de se imiscuírem em mundos onde nada percebem e que só causam distúrbios prejudiciais ao bom e real funcionamento do mundo do espectáculo que implica trabalho moroso e hoje em dia difícil de cumpri-lo com a qualidade e beleza imprescindível para um maior sucesso qualitativo e não logisticamente quantitativo. Claro, que sem prejuízo para o bom funcionamento financeiro das instituições que tutelam o bem-estar dos cidadãos no espaço deste nosso mundo, que não é o palco dos artistas.

Eduardo Luíz, Actor