“Não foi por acaso que Jesus escolheu para apóstolos homens e deu às mulheres outro tipo de atenção". A frase foi proferida por D. José Policarpo para explicar a razão porque a Igreja não pode aceitar o sacerdócio feminino e, por isso, reserva às mulheres outro tipo de serviço. A pérola deste pensamento é mais um tiro no pé daqueles que a Igreja tanto preza e comete de forma deliberada, repetida e, pelos vistos, sem qualquer vontade de alterar acções e omissões.

Esquece-se esta igreja que as histórias narradas pela Bíblia, entre elas a escolha dos apóstolos, foram também escritas por homens, em contexto histórico, geográfico e social e não apenas por uma suposta inspiração divina.

Esquece-se esta Igreja que os tempos sempre foram de mudança e que, hoje, estar teimosamente a defender ideias ultrapassadas, caducas e discriminatórias, não faz qualquer sentido, principalmente perante aquelas que foram e são as conquistas em termos de liberdade e igualdade.

Mas, pior do que tudo isto, é continuar nesta espécie de autismo orgulhoso e cínico de achar que as mulheres ainda estão disposta a aceitar uma discriminação de género, apenas porque alguns iluminados de batina a querem impor com base em verdades absolutas e obsoletas.

Se às mulheres está reservado outro tipo de serviço, por mim peço dispensa. Seria ir contra as minhas convicções aceitar uma Igreja que ainda olha para as mulheres como aquelas que devem limpar os templos e a casa dos padres, as que devem obediência ao marido em vez de partilha entre iguais, as que estão reservadas a outro tipo de serviço, mas não podem aspirar a ser aquilo que está unicamente acessível aos homens. Recuso uma hierarquia de género, para a qual não encontro explicação ou desculpa.

Se a igreja quer continuar orgulhosamente só, orgulhosamente masculina e caduca, que siga esse caminho. E que continue a impor solidão aos homens que a compõem. A negar-lhes o direito a uma família, ou a liberdade de não a constituir. Mas, a continuar assim, que não fale do que não sabe. Que não fale das mulheres, da família, daquilo que verdadeiramente desconhece.

Falo por mim e só a mim me vinculo, mas digo claramente que não aceito que me reservem serviço ou outro tipo de atenção que não sejam sustentados em parâmetros de igualdade. Recuso redutos alicerçados em diferenças anatómicas, mas sobretudo recuso redutos sustentados em visões estreitas, em hierarquias fechadas, em dogmas e em retórica gasta e bolorenta.