"Bebeu alguma coisa hoje?", perguntou a agente da PSP, numa manhã desta semana, em pleno corredor do hospital. O inquirido fez sinal que não. "Pode fazer o teste do balão?", voltou a perguntar. Uma, duas, três vezes. Perante os protestos do filho do inquirido, a agente acabou por recuar. Mais tarde, voltou com uma enfermeira para fazer a recolha de sangue para o teste de alcoolémia. E pergunta o Leitor: que tem isso de extraordinário? Quase nada! A não ser o facto de o inquirido ser um homem de 77 anos, prostrado numa maca onde quase só podia mexer os olhos e os membros, estes com dificuldade, e que estava a ser 'convidado' por uma agente - fardada a rigor, incluindo a arma no coldre - debruçada sobre a maca. Além de que o homem estava extremamente nervoso, que tivera um acidente grave duas horas antes, que tinha fortes dores nas costas e temia alguma fractura na coluna. Mais: o alvo de tanta atenção policial estava com a cabeça totalmente imobilizada e acabara de fazer um Raio-X cujo resultado desconhecia ainda. Pior: depois do primeiro exame na temível 'sala zero' do Hospital Dr. Nélio Mendonça - para onde são encaminhados os doentes mais graves - ainda não tinha sido visto por nenhum médico. Ou seja, ainda não se sabia se tinha partido a coluna ou se tinha perfurado o pulmão, por exemplo, e a agente da PSP queria à força toda fazer o teste do balão. Só mais um 'pormenor': do acidente, como confirmara antes uma brigada policial, resultara ferido apenas o condutor que fora hospitalizado e que viajava sozinho. O resto foram algumas flores da berma da estrada partidas, uma pedra deslocada uns dez centímetros e danos materiais na própria viatura. Nada mais. A minha questão é simples: perante este quadro, deve um agente policial pôr-se à frente do médico? Deve o agente da autoridade agir com a mesma atitude como se estivesse a fazer uma 'Operação Stop' ou a perseguir um suspeito criminoso que há muito procurava? "Apenas estou a fazer o meu trabalho", respondia a agente perante os meus protestos contra uma total falta de sensibilidade para com o meu Pai. Confesso que além de profundamente nervoso e irritado, fiquei indignado! Como é possível um agente da autoridade agir assim? Se é certo que deve ter cumprido todas as formalidades, é mais do que certo que falhou completamente num aspecto que não está escrito na Constituição, nem em nenhum código, mas que me parece um valor da sociedade: o bom-senso. Ou, se preferirem, regras básicas de educação. Faço público este desabafo como parte interessada, que terá, admito, uma visão parcial. Mas o que vi e ouvi deixou-me magoado e não acredito que na Polícia se ensinem estas atitudes. Recordo que as perguntas foram várias em diferentes momentos antes de insistir, no corredor, à frente da área da Ortopedia, ao lado de outros pacientes, naquelas perguntas todas já com o aparelhómetro do balão na mão. Esta observação não é uma denúncia, não é uma notícia, nem é um eventual 'ajuste de contas', nada disso! Procura apenas sensibilizar para que episódios destes não voltem a acontecer. Que se tomem todas as precauções em caso de feridos em acidentes, que se façam testes de alcoolémia, mas não se abuse da autoridade. E que se reavaliem as regras. Sobretudo que alguém, na Polícia ou no Hospital, considere a possibilidade de evitar que o agente policial possa ter acesso ao doente antes do médico, pelo menos nas situações acima descritas, em que o mais fácil, e credível, será simplesmente a recolha de sangue. De certeza que para quem está ferido e ansioso é preferível ser picado por uma agulha do que sucessivamente questionado sobre se aceita ou não soprar o balão. Este reparo não ficaria completo sem um sincero e reconhecido agradecimento aos Bombeiros Voluntários Madeirenses, que acudiram o meu Pai - embora a primeira ambulância tenha avariado, conseguiram trazê-lo em segurança para o Hospital - e a todo o pessoal médico, enfermeiros e auxiliares do Hospital Dr.Nélio Mendonça que revelaram uma grande atenção perante um doente que, não sendo personalidade pública, não precisou de nenhum pedido especial para, aparentemente, ter todos os cuidados de que precisava naquele momento.