A Madeira é um sítio marcado pela dualidade. Uma dualidade orográfica, do Mar e da Serra. Uma dualidade geográfica, de Norte e Sul vincados. Uma dualidade paradoxal, de verdes sentados ao sol na Calheta e aridez chuvosa no Caniçal. Desavindos, mas intimamente leais, como irmãos de pais diferentes, Madeira e Porto Santo também são dois. Esta dualidade entrou nas pessoas. O Madeirense não vive sem os seus Némesis, internos e externos. Se a medida de um Homem é a dos seus inimigos, o Madeirense não sai de casa sem a fita métrica. Há o Maritimista, popular e inadvertidamente republicano, e o Nacionalista, aristocrático e inadvertidamente elitista (não há gente como eles). Há o queque e o vilão - e uma terceira categoria, onde ambos se reúnem, a que apenas parece pertencer o Cristiano Ronaldo. Há a Madeira Velha, que se recusa a rejuvenescer, poupando-se à desilusão de descobrir que não consegue fazê-lo. Há a Madeira Nova, que, de tanto querer envelhecer, começa a conseguir, sem contudo mudar de nome. A Madeira Nova e a Madeira Velha não têm ainda o seu Cristiano Ronaldo. Há os ingleses, que já são de cá, e os estrangeiros, amostra do resto do Mundo onde o Madeirense identifica um padrão de meias brancas com sandálias. Há, claro, os cubanos, espécie tida como execrável, cuja única hipótese de reabilitação está em, cumulativamente, ter amigos madeirenses, não falar açoriano quando imita madeirense, e saber beber. Reconheça-se, nesse caso, a rara presença de um Continental, adversário de inferior calibre. Por caricatural que seja, há na ilha a ideia latente de que todo o pluralismo é um antagonismo. Ideia fatal na borrasca que se aproxima, suportável apenas com a solidariedade de todos. É por isso que recebi com grande felicidade a notícia da proeza náutica do João Rodrigues. Em vez de descansar à sombra das suas cinco (!) participações olímpicas e do seu diploma de engenharia, o João legou-nos um testemunho de preserverança e disciplina. Pulverizou a dualidade e, em viagem às Selvagens, resgatou simbolicamente o melhor que há na Civilização. Aos 40 anos, o João não viajou enquanto nacionalista ou maritimista, velho ou novo, queque ou vilão, cubano ou madeirense, português ou estrangeiro. Fê-lo enquanto Homem, porque a sua própria medida assim o exigiu. Tenhamos a coragem de fazer nossa a medida dele. Tenhamos a coragem de não precisar de inimigos. São pessoas horríveis com quem naufragar.
Pedro Fontes, Advogado-Estagiário