O que terá uma artista madeirense que faz de 12.000 m2 no Caniço uma imensa tela e um jornalista/professor de filosofia/realizador de cinema norte-americano com menos 10 anos de tempo e um filme de 8 horas em carteira? Lourdes de Castro e Terrence Malick, dando-lhes nomes. Para além de serem ambos os protagonistas de dois filmes imperdíveis - Lourdes como a visada, Malick como o visor - ambos sabem que o SER é um lugar por onde só os "eus" livres circulam e se manifestam, nas reflexões e nos caminhos da descoberta de como é a vida para cada um de nós, ou o que é a vida, ponto. "A Árvore da Vida" é o nome do prémio que na edição de 2010 do IndieLisboa a Igreja Católica entregou a "Pelas sombras" o documentário - inconvencional - de Catarina Mourão sobre Lourdes de Castro. "A Árvore da Vida" é o filme de Malick vencedor da Palma de Ouro de Cannes deste ano e esta semana em estreia no Funchal, na versão de duas horas e picos! Longe da arte que se pendura na parede ou do cinema vazio de expressão estes dois "seres de gloria" transbordam sabedoria. Os Cincos Elementos do pensamento oriental milenar representam os ciclos tanto da terra como da vida humana. A Árvore apresenta-se como a força universal que acorda depois do sono de Inverno. Simboliza o renascimento primordial. Espiritual se quisermos. Representa o movimento direccional da própria existência. A sabedoria milenar destes e doutros povos (os gregos viam o universo com o mesmo olhar) é intemporal e estende-se, em espiral, a tudo e todos. Mesmo se não o soubermos nenhum de nós é excepção. Lourdes e Mallick sabem-no. Também como via de transcendência, "este" cinema abre janelas que nos ajudam a explorar zonas de nós - e dos outros - sem explicação racional. Dois filmes guardadores de poesia, de metáforas, de vida e de beleza que tornam visível o invisível. Porque o verdadeiro prazer só faz sentido se embebido de sentido. NOTA: "Pelas Sombras" em DVD na Porta 33.

Teresa Mizon - Apresentadora de TV