Há dias, à saída da reunião de entrega da avaliação do meu filho, cruzei-me com um grupo de pais que, em entusiástica cavaqueira, trocava impressões sobre o ano lectivo agora findo. Nada de mais, como é óbvio, numa altura em que as escolas se tornam ponto de encontro de encarregados de educação, alunos e professores e em que é chegado o momento de traduzir em números - leia-se notas - o trabalho desenvolvido ao longo de cerca de nove meses de aulas. O grupo de pais, dizia eu, não estava sozinho. Fazia-se acompanhar dos respectivos filhos, jovens do 9º ano como o meu, que participavam animadamente na conversa num à vontade de quem já está habituado a debater, de igual para igual, com os mais velhos. O quadro, confesso, até seria bonito se se pudesse omitir a conversa. Mas não se podia, pois o tom inflamado fazia-a ressoar ao longo do corredor, deixando adivinhar que, no cerne da discussão, estava a suposta descompostura que uma professora dera a um dos jovens numa aula. A mãe queixava-se do "atrevimento" da docente, o filho resmungava alguns impropérios e, no meio disto tudo, o pai de outro dizia: "Se tivesse sido comigo, fazia uma participação e punha a professora a andar à roda…" Todos aplaudiram, graúdos e miúdos, enquanto eu desaparecia pela escada ainda a tempo de ouvir "é preciso pôr este pessoal na linha". Não sei qual foi o "atrevimento" da docente em causa, mas sei qual foi o destes pais que, perante os filhos, reduziram a zero a autoridade não só daquele como de todos os profissionais do ensino que, bem ou mal, tentam contribuir para as formações académica, cultural e pessoal dos seus filhos. Pergunto-me o que será necessário fazer para que se entenda, de uma vez por todas, que só o trabalho conjunto de encarregados de educação e professores poderá garantir, eficazmente, o sucesso de filhos/alunos. Não se pense que com isto se diz que é preciso calar a incompetência de alguns docentes. Não, o que se afirma é que, para denunciar "atrevimentos", há formas e canais próprios que não são, de modo algum, o insulto gratuito, que desmistifica a imagem do "mestre" junto dos mais novos, nem um corredor de escola. Sabemos que temos direitos em tudo, esquecemo-nos, no entanto, que também temos deveres. E se os encarregados de educação - alguns dos quais professores também - têm meios legais para fazer valer os direitos dos seus educandos face aos docentes, o mesmo já não acontece a estes em relação àqueles. O que pode fazer um professor face ao encarregado de educação que incentiva à insubordinação na sala de aula? Que incute ao seu educando o hábito de chegar tarde aos primeiros tempos da manhã e da tarde porque não o deixa a horas na escola? Que lhe envia sms's triviais no meio das aulas? Que, valendo-se da permissividade da lei, lhe justifica as repetidas faltas dadas por mera leviandade? Que premeia a exclusão por faltas com carta de condução ou dinheiro para tardes intermináveis no café ou nas noitadas? Que desdramatiza o recurso a formas fraudulentas - vulgo "copianço" - para obtenção de boas notas? Que se orgulha mais da esperteza saloia do que do mérito alcançado com esforço? Que exige para o seu educando uma nota que ele não merece? Que pode fazer o professor perante tudo isto e muito mais? Nada, simplesmente nada. Sejamos honestos connosco próprios. Se queremos que os nossos jovens tenham sucesso, assim não vamos lá. Ou cada um assume as responsabilidades que tem ou então nada a fazer. Pais e professores têm de ser cúmplices na formação da geração que está hoje nos bancos da escola. Só assim poderemos criar adultos que sejam exigentes consigo próprios e que não cedam à tentação da vida fácil. Deixemo-nos, pois, de baboseiras e de "atrevimentos" e façamos este país andar para a frente. Já vai sendo hora disso.
Eker Sommer