Violante Saramago Matos Será de estar longe da ilha, será da falta dos amigos para me explicarem melhor certos fenómenos, será do que for, mas o certo é que, na solidão dos meus pensamentos, Concordo com Jardim! Concordo, pronto. Desde logo, porque resolveu aquela coisa esquisita de ver alguns influentes e importantes membros do seu partido desancarem na falta de isenção e pluralismo deste Diário e, depois, irem a correr para casa acabar o artigo que haverá de ser publicado no dia seguinte. Onde? Precisamente no DN, o mesmo jornal que tinham escavacado horas antes. Incongruência a mais, não? Um pouco ridículo, não? Eu acho, mas quem sou eu… Mas já que se alimenta um Jornal - o da diocese, claro - convém ter mais e melhores textos de opinião. Claro que, por via disso, os leitores do DN ficarão privados da excelsa prosa e dos elaborados pensamentos daqueles que agora saem (haveremos de ver quantos corajosos ficam), mas paciência. Há que escolher: ou deixar tanta opinião válida ser consumida por gente a quem Jardim não atribui grande qualificação (energúmenos, mafiosos, eleitorado do cachorro - lembram-se?), ou então agarrar em todos esses génios da literatura e transferi-los para onde possam ser mais úteis e proveitosos. Ainda por cima, há sempre o perigo de sair alguma inconveniência - quem não se lembra do célebre artigo de Sara André? - ou de outros adquirirem algum protagonismo que ensombre, ou ameace ensombrar, o chefe? Finalmente, porque, Caramba, há que mostrar quem manda! Só acho que lhe faltam mais umas coisinhas: não informe a redacção do DN da sua profícua agenda e, assim, impedirá o diário de dar cobertura às inaugurações que inaugura, aos nacos de boa prosa que dão corpo às comunicações que comunica, às deslocações secretas que secretamente o levam até à Europa. Proíba a denúncia dos escandalosos números de desempregados sem emprego, de gente esfomeada que tenta ultrapassar a fome na Sopa do Cardoso, de criminosos crimes contra o ambiente, enchendo os bolsos de alguns. Isto está cheio de redundâncias? Está, mas eu escrevo no DN; não faço parte dos iluminados da escrita. Proíba fotografias, legendas, títulos, caricaturas e, de caminho, numa manifestação de verdadeiro serviço público, cuide da nossa saúde mental e proíba notícias sobre a vergonha que é a actuação do seu grupo parlamentar na Assembleia. Mas não ameace nem pressione, proíba mesmo. Não é nada que não se consiga com uma portariazita ou, mais fácil ainda, com uma daquelas extraordinárias resoluções nascidas em Conselho de Governo extraordinariamente convocado para o efeito, na Quinta Vigia. Para além destas coisitas - minudências, no contexto geral da importante decisão de proibir membros do seu partido de escreverem no DN - tenho que dizer-lhe Sim senhor, matou vários coelhos de uma cajadada só! Agora veja lá, não vá o cajado dar a volta completa e acertar-lhe na cabeça. Era chato!