Quando olhamos para trás no tempo ficamos com a sensação que foi tudo tão rápido, não foi? … Se pararmos um pouco e analisarmos os últimos 35-40 anos até parece que foi tudo um sonho que um novo tipo de despertador, chamado Troika, veio agora interromper. E como é normal, nos primeiros momentos após soar o alarme, ficamos sempre desorientados e confusos. Pensem comigo apenas em 2 ou 3 factos que ocorreram neste últimos anos que julgo ilustrarem bem o que referi anteriormente. Sou da geração de 74 e lembro-me que no tempo dos meus avós, e mesmo dos meus pais, a aquisição de uma casa era um objectivo de vida, ou seja, trabalhavam e poupavam uma vida inteira para, um dia, ter uma casa. No meu tempo a aquisição de casa, e os encargos daí decorrentes, passou a ser quase prioritário no início da vida activa. Vejam, por exemplo, em relação à aquisição de automóveis, no passado não havia muitas famílias que podiam ter um carro. Hoje em dia, há muitas que já têm pelo menos dois. Querem algo mais simples, uma mera televisão. No passado havia uma por casa, em muitos casos a preto e branco, e colocada na sala. Hoje temos várias a cores na sala, na outra sala, no quarto, na cozinha, e sei lá mais onde… São apenas 3 exemplos de mudanças significativas em apenas 30 anos. E agora pergunto o que é que aconteceu ao longo desses 30 anos que justifiquem todas estas alterações… Produzimos mais e melhor? Aumentámos a nossa produtividade? Aumentámos as nossas exportações? Fomos mais eficientes e eficazes? Gerimos melhor o estado e as nossas empresas? Crescemos exponencialmente? Descobrimos petróleo?.. Foi bom enquanto durou? Claro que sim. Deu jeito? Claro que deu. Tornou-nos melhores? Se calhar não. Somos mais felizes? Nem por isso. É altura de nos perguntarmos o que é que realmente queremos, o que é importante, até onde estamos dispostos a lutar por tudo aquilo em que acreditamos e no que realmente nos faz felizes e voltarmos a equilibrar as nossas vidas. Recordo-me sempre de um episódio que me aconteceu em férias no Brasil - no tempo em que ainda era possível ir ao Brasil… adiante - e num certo dia em que conheci um personagem na rua que fazia arte com folhas de bambu. Aproximou-se e enquanto criava foi falando comigo. A determinada altura perguntei-lhe qual era a sua maior ambição, o sonho da sua vida… ele parou, olhou-me e respondeu com ar sereno e confiante que, para além de continuar com a sua arte, o seu maior sonho era ter um VW carocha de 2.ª mão! E sabem uma coisa, ele parecia tão feliz…

Nuno Agostinho, Empresário