A frase em título não foi construída por mim. Li-a há poucos dias num jornal europeu, e integrava-se numa matéria editorial sobre o acordar dos governos de alguns Estados-membros da União Europeia face à ineficácia das suas medidas e perante a raiva quase cega dos cidadãos, que se tem repercutido em acções muito noticiadas, nos palcos de algumas praças maiores de cidades capitais. Afinal, um sentimento que se vive hoje em Portugal, onde os Portugueses começaram a tomar consciência do que está para chegar. Também por aqui, e vamos incluir a Madeira neste contexto nacional, com algumas particularidades agravadas, há grupos de descontentes, que com mais ou menos folclore e excitação, manifestam a sua indignação. Quanto mais nos atingem as medidas restritivas e as consequências do regabofe de gestões governamentais que se pautam por concessões para contentar clientelas político-partidárias e assegurar votos em cada acto eleitoral, mais avaliamos as consequências que a assunção de novas rotinas, marcadamente mais restritivas, podem ter nas nossas vidas. Há todo um envolvimento que nos abrange, desde o desconforto que o pacote da crise provoca, à angústia de sabermos que outros ficarão piores que nós. A “dolorosa tomada de consciência da realidade” é, na verdade, o que segue, quando conhecemos a verdade e constatamos a ineficácia das medidas e a falência da gestão que deveriam ter em atenção os cidadãos e não as vaidades e teimosias pessoais, as concessões às clientelas político-partidárias. Arrastados pela crise vamos emigrar mais. Uma coisa que há dez anos ouvi um governante dizer, em alto e bom som, que nunca mais iria acontecer neste País. Ontem foi divulgada uma sondagem em que se revela que três em cada dez jovens portugueses encaram a hipótese de emigrar para conseguir ter emprego, a maioria o primeiro emprego depois de uma licenciatura. Portugal foi um país de aventureiros e intrépidos marinheiros, que estremeceram o mundo pela sua bravura nos séculos XV e XVI. No século passado, os Portugueses voltaram a atravessar os oceanos para escapar à pobreza de uma terra e de um povo que viviam subjugados a um Estado governado por um grupo de “compadres” e personagens cinzentas, sob um regime decalcado do pior que a Europa tinha na Alemanha e na Itália. Em pleno século XXI a ameaça de falência força-nos a deixar a terra, agora com rumos diversos e diferentes, em ziguezague pelo mundo, para conseguir trabalho, à procura de quem precisa de mão-de-obra qualificada, mas que se rende a qualquer trabalhinho, desde que isso represente uma renda. Esperamos que esta “dolorosa tomada de consciência da realidade” nos transmita a verdade da situação, que sejamos informados, também com verdade, das medidas que estão a ser tomadas e da sua eficácia, de forma a que nos motive a ser parte da solução. Porque, parte do problema já somos, e sê-la-emos muito mais se nos continuarem a enganar, se nos continuarem a desviar da realidade, e se continuarmos a ver que governar é manter-se no poder, por quatro ou por trinta anos, na ambição cega de mandar e de ter a chaves da porta na mão… Porque “cego de raiva” anda o povo, indignado e endividado, à espera de soluções que lhes devolva a esperança e, mormente, a tranquilidade perdida pela dúvida instalada e a ansiedade de que poderá encontrar o precipício se arriscar em dar um passo em frente.