Com a chegada do calor, aproxima-se o tempo em que as escolas encerram trazendo as crianças e jovens para casa, arrastando as famílias para perto dos mares e das serras que o planeta disponibiliza à distância que os aviões e as carteiras possam proporcionar. Ao estio correspondem também os regressos aos lugares e famílias que em tempos difíceis ou mais aventurosos se deixou para trás em busca de algo melhor que agora se demonstra na narrativa das venturas passadas. A calmaria estival também cobre o simples nada fazer, o ir a banhos, os convívios e as pequenas tarefas adiadas, cujo cumprimento só será viável quando o ano todo seja verão. Estas são, com mais ou menos variáveis, as perspectivas e alternativas do comum dos mortais que utiliza esta época para a pausa retemperadora antes do regresso à rotina. Dos que trabalham nesta estação sabe-se que, alguns, guardam em segredo a vantagem das férias tranquilas noutras temporadas, mesmo que mais frias, já que evitam o que dizem ser a histeria do escaldão. São os que descobriram as férias fraccionadas e outros verões quando cá não o temos. Dos profissionais, sabe-se daqueles que mantêm os serviços de apoio às férias dos outros, das tentações grevistas que nos podem acabar com o belo verão e, da poupança de tempo e dinheiro no que toca às notícias resultantes do insistente cumprir dessa crença estúpida e estupidificante que diz que sem politica não há notícia. Pois bem, em tempos de alterações globais, eis que se declara o fim da "silly season". A frivolidade, este ano, dará lugar à expectativa, à esperança, à confirmação dos piores temores e à desistência, à motivação, elas, novas caras e ideias. Não haverá descanso nas fontes, nos veículos ou no público. Temos trabalho de verão e não vai ser um biscate que se pode largar ao menor sinal de cansaço ou ao estímulo atraente causado pela proximidade de uma festa quente ou de uma simples cerveja. Há trabalho para todos. Até os políticos anunciam essa agenda de salvação nacional que os tranca, a uns, nos passos fresquinhos de São Bento, a outros nas reuniões sob ar condicionado dos gabinetes, seja em Lisboa, Funchal ou Bruxelas. E há então essa esperança de que mais vale dar um mês de trabalho do que um salário inteiro em nome de uma mudança. Será o fim do velho paradigma dominado pelas máximas de que mais vale pagar do que trabalhar, receber para não produzir? Será, como o é sempre, um Verão inesquecível. Teremos Sol, praia, serra, família, amigos, festas e ainda, trabalho, produção, mudança, organização, empenho, vontade e alegria. E, de uma vez por todas, acabou-se a "silly season" que no nosso país, de tão perene, nos parecia ocupar o ano todo. Eis um belo sonho de Verão.

António Domingos Abreu