Dois dos erros mais comuns nas análises à economia criativa residem nas ideias de que esta é apenas identificada com a noção de "serviços", em que tudo é intangível e a outra é que a tradição não se encaixa na inovação criativa. Quanto à primeira, se bem que os serviços são parte maior das indústrias criativas e culturais (ICC), é fulcral que a produção de bens transaccionáveis seja um dos objectivos primordiais de qualquer estratégia de apoio às ICC. O design de equipamentos, a construção urbana, a criação de gadgets (digitais ou não), a moda, a joalharia, a escultura, o artesanato, etc... são áreas cruciais que não podem ficar de fora de qualquer projecto de gestão cultural global. E quando se olha para a quase totalidade dos projectos de empreendorismo que se têm apoiado em Portugal (e na Madeira) nota-se a ausência total de ideias deste tipo. Dir-me-ão que vão em voga com o abandono da indústria que se verificou nas últimas décadas no país, eu dir-lhes-ei que se trata de um erro gigantesco. E no case study madeirense, esta ausência da manufactura leva-nos ao outro erro dos decisores das ICC. A quase repelência ao tradicional. Esquecer o nosso terroir cultural leva no médio prazo a uma ausência de significado que tem efeitos nefastos para qualquer criador. Não quero dizer com isto que todos os projectos das ICC tenham uma obrigatoriedade de se interligarem com as nossas tradições, mas o verdadeiro desafio da originalidade está no equilíbrio perfeito entre a nossa identidade cultural e a emergência de uma força inovadora individual que é a marca de um criador. E, quando oiço o último disco de Eddie Vedder chamado "Ukulele songs" e a sua descrição do processo de construção criativa para esta gravação, só me apetece mandar construir 1.000 rajões e braguinhas ao mestre Carlos Jorge e enviar para 1.000 músicos em todo o Mundo para ver o nosso terroir a influenciar os outros.
Maurício Marques, Gestor Cultural