Este sábado, ainda agora, portanto, num presente passado, mas não muito, ouvi, pela manhã fora, um poeta falar do tempo, de palavras e de silêncio. Falar da importância de não esquecer a arte de contar histórias. É pela narrativa, disse, que se pode modelar o tempo dos relógios, instaurar esse tempo subjectivo que nos salva da cronologia certa, rápida, voraz. É o tempo do silêncio entre as palavras, mas também das palavras que trazemos em descompasso, ao ritmo do coração. Porque, diz José Tolentino Mendonça, a nossa ficção também é a nossa realidade.
No número 33 da Rua do Quebra Costa, o poeta falava entre vasos de fetos, enquanto um gato dormia lento no telhado. A conversa teve uma duração medida pelo relógio estratégico, colocado em frente, a cumprir o ofício de medir o tempo do poeta, já a fugir às horas do sol.
Entre o tempo real e a narrativa sem tempo, cresceu o silêncio da memória e a certeza, que ainda agora permanece como presente infinito, de que as palavras e os seus silêncios foram sempre esse espaço intemporal que se instaura como única realidade possível.
Por entre os fetos do jardim, a voz da minha mãe surge como se fosse hoje, a contar histórias. O velho da barba azul ali tão perto, a espreitar atrás do poeta que fala do tempo. O velho gira-discos do meu pai a tocar as palavras de Ary dos Santos, cavalo à solta no meu peito. O meu peito já a crescer para fora do tempo da infância, enquanto eu tentava desesperadamente agarrar as sombras do quintal.
A voz das vizinhas e as histórias, o rádio na música pedida, o gosto das ameixas ainda verdes, os joelhos esfolados. As sardas do meu irmão a sorrir. Quase que ainda o vejo por entre os fetos que acompanham as palavras do poeta.
De repente, já somos crescidos, feitos tempo, mas ainda meninos na memória e na narrativa da infância.
Vieram outras palavras, outros livros, outras histórias. Outras sombras e outros quintais. Vieram novos amigos. Aqueles que nos levam pela mão, que nos dizem Ruy Belo, Herberto Helder. Amigos de palavras, grandes, imensas. E somos novamente meninos com palavras por dentro. Ainda agora a ouvir o poeta como que a ouvir os gira-discos do meu pai. É música o que nos guia por entre o fetos deste quintal.
É daqui, de onde estamos, que olhamos o mundo "do ponto mais alto do céu a 56 milhões que quilómetros" e temos a certeza de morrer "por uma só dessas coisas que trazemos sem que possam ser ditas". As palavras de José Tolentino Mendonça entre aspas, mas em liberdade dentro de nós. Ia jurar que ainda somos meninos, ou poetas, ou palavras.
Olho para trás, ou para a frente, o que for. De qualquer lado, vejo-nos sem tempo, de joelhos esfolados ainda, a voz da minha mãe, as histórias, o poeta a sorrir por entre os vasos do meu quintal.