Quarta-feira à noite a Casa de Ló estava "cheia como um ovo". Gosto desta expressão. "Cheia como um ovo". Ando a usá-la como uma criança que acaba de descobrir uma palavra nova. Ouvi-a da boca de um amigo que chegou na hora de ponta e que, como outros, teve de esperar na salinha de entrada. Era a apresentação "informal" do meu novo livro, Viagens Brancas (a "formal" decorrera durante a tarde daquele mesmo dia, no jardim do Centro de Respostas Integradas Porto Ocidental). E eu sentia-me como uma noiva, incapaz de dar a cada pessoa a atenção que cada pessoa merece. Só quando me sentei para dizer qualquer coisa reparei numa coincidência: apresentava um livro de doze reportagens na semana em que completava doze anos de jornalismo, doze anos de Público, doze anos de Porto. E, no meu remoinho, um sentimento ultrapassava qualquer outro: gratidão. À minha frente, naquele bar-café-galeria "cheio como um ovo", tantos colegas, tantos amigos - família escolhida, família construída com pedra e cal, a pedra e a cal de que se constroem as horas boas e as horas más que fazem os dias, as semanas, os meses, os anos. E apenas uma pessoa que comigo tem laço de sangue - Betty, prima em terceiro grau. Não tenha o leitor pena de mim. Não fui enjeitada pela família. Pertenço a uma família que sai da ilha e que se entrega, que se mistura, que cria raízes nos sítios que escolhe para fazer vida. Uma vez, dei-me ao trabalho de contar. Encontrei 17 nacionalidades dispersas por três continentes - grande concentração no Reino Unido e na Venezuela, claro. Partir não tem de ser perder. Partir pode ser acrescentar. Lá para Agosto, quando o Viagens Brancas for apresentado em São Vicente, quero uma sala "cheia como um ovo". Presença garantida de pelo menos uma das criaturas a quem este livro é dedicado: a mãe. A outra, a irmã, deve estar em Inglaterra.

Ana Cristina Pereira