O desporto é um meio de transformação da pessoa. Ora essa transformação deve ter uma intencionalidade em função dos objectivos visados. Podemos, por exemplo, formar para desenvolver capacidades e competências que potenciem a autonomia, a tomada de decisão, a montagem de estratégias, ou pelo contrário a dependência, a obediência cega, a reprodução de estereótipos. O desporto pode assim ser um meio que contribui para a modificação ou para a manutenção do status quo de uma sociedade. Será que cada um dos intervenientes no processo tem consciência disso, ou seja, faz opções em função do tipo de transformação que pretende promover? Os pais são informados ou questionam-se sobre o tipo de transformação que os seus filhos, de uma forma intencional ou não, estão a "sofrer"? Os dirigentes, os treinadores, os políticos, os jornalistas, o espectador comum, preocupam-se com isso? Será que o único indicador do trabalho realizado é o resultado desportivo? Será que já se fez uma análise séria das razões que levam a que muitos dos que nos escalões de formação alcançaram resultados de nível nacional e internacional depois abandonem ou vejam os seus resultados passarem a ser de nível mediano? Bastará agitar a bandeira da falta de apoios e da ida para a Universidade? Será que isto acontece de forma generalizada ou ocorre de forma mais acentuada em algumas modalidades e clubes, ou com alguns treinadores? Hoje já é possível que as respostas a questões deste tipo possam ser dadas com uma coerência global que ultrapasse a mera quantificação de "medalhas". Competir é o que nos motiva a agir, a fazer o esforço, a privilegiar o trabalho. Um trabalho que não tem que ser sacrifício, mas que tem que ser prazer. Competir é avaliar. Basta ver miúdos e graúdos a competir constantemente "por tudo e por nada". Ter prazer é uma forma de rendibilizar os processos. Aprender a "jogar" hoje, amanhã, e depois, é uma forma agradável de deixar de olhar só para o imediato e passar a olhar para o médio e o longo prazos, para nos preocuparmos com os diferentes tipos de capital (o financeiro, a saúde, o prazer, a educação, etc.). Aprende-se, assim, a olhar para o futuro e a incluir aí as próximas gerações. O que fazemos ou deixamos de fazer hoje terá necessariamente repercussões mais cedo ou mais tarde.
Hélder Lopes, Professor da UMa