José Santos Numa recente iniciativa de campanha eleitoral, na qual participei enquanto activista da força política promotora, houve necessidade de partilhar o espaço onde tal iniciativa estava a decorrer com algo que, sinceramente, não cheguei bem a perceber o que era, mas que envolvia mesas de mistura, microfones, amplificadores e colunas de som... e acho que alguém a tentar cantar (e digo a tentar porque não dei por estar a sair dali o que se convenciona designar por música). Mas pronto, como disse, não posso afiançar ao certo sobre a natureza do evento porque não cheguei a captar o "sentido da coisa". Sendo esta uma sociedade livre, e como havia espaço que chegasse para todos, nós, na acção de campanha, não ligámos muito (é que nem havia muito para ligar...), e lá continuamos com o que tínhamos para fazer. Ora, estávamos nós, os activistas e simpatizantes, em amena cavaqueira antes de iniciar a iniciativa propriamente dita, mas já com o som ambiente ligado quando, eis que parte para nós, qual locomotiva, um indivíduo, visivelmente transtornado, acompanhado por um outro, que aparentavam ter algo a ver com o que se estava a passar ao lado, a dizer que era inconcebível que aquilo estivesse a acontecer, logo ali, precisamente em algo que estavam a fazer e em directo para cinco rádios (uau! cinco rádios já é qualquer coisa, não é para qualquer um... se bem que não percebesse bem que raio era aquilo). Tentámos acalmar o exaltado cidadão (acho que alguém falou mesmo em água com açúcar...), dizendo-lhe que aquela era uma acção de campanha eleitoral, que não estávamos a incomodar nada nem ninguém, que ninguém se estava a queixar, mas o pobre coitado estava cada vez mais alterado, já a aproximar-se daquele estado típico dos putos birrentos, quando começam a bater com os pés no chão, esbaforidos e a berrar a plenos pulmões. E eis quando, no meio da comoção, acaba por lhe sair um "eu detesto partidos políticos! Por mim, era dar um tiro nos cornos a todos!". Eh lá!... Ui, que esta foi forte... Enfim, eu também não gosto de cacofonia, mas é claro não ando a irromper pelo que quer que se faça por aí com algo que pretende ser música (pelo menos foi o que pareceu, a menos que estivessem a esfolar gatos vivos), a dizer que detesto pimba-piroseira hardcore de 3.º escalão e que o que apetecia era fritá-los a todos com um lança-chamas, mas em lume brando, que é para levar o seu tempo, e entretanto podia ser que algum se arrependesse e mudasse de vida... Mas pronto, a malta já está mais que calejada nestas andanças e habituada a ouvir um pouco de tudo, em todo o lado, e não levou a mal, bem pelo contrário; sorrimos com ar benevolente e compreensivo, e tentámos confortá-lo. .. Por isso aquele desabafo só poderia querer dizer uma coisa: o senhor estava com óbvios sintomas de fraqueza, e já começava com visões, se calhar por falta de um pequeno-almoço substancial, algo sempre necessário para enfrentar os desafios de um dia trabalhoso; porque, reconheçamos, fazer directos do que quer que fosse aquilo para cinco rádios em simultâneo... é obra!..