Manuel Nunes Segundo uma notícia de jornal, foi encontrado pela polícia, na cidade do Porto, um homem de 52 anos de idade que estaria morto ma cama há cerca de oito meses, sem que familiares ou vizinhos dessem pela sua falta. São cada vez mais comuns casos como este relatado pelo JN. É uma situação preocupante não só pelo facto de mais uma pessoa ter morrido mas sim pelo facto de ter morrido abandonada. Nem família nem vizinhos se terão apercebido da morte deste homem. Apetece perguntar, qual família, quais vizinhos? Vivemos num mundo de estranhos em que aqueles que menos conhecemos e nos conhecem são os nossos familiares e vizinhos. Como poderemos dizer que este homem tinha família e vizinhos se durante oito meses não notaram a sua falta? O homem vivia num apartamento o que pode dar uma falsa ideia de vida em comunidade. Nos dias de hoje, viver num bloco de apartamentos com seis ou sete andares, não quer dizer viver em comunhão com os demais moradores do bloco. Por vezes estas pessoas estão completamente isoladas ao ponto de nem conhecerem o vizinho que vive na porta em frente. Saem de noite para o trabalho, chegam de noite e se tiverem sorte cumprimentam um ou outro no elevador ou nas escadas. Problemas de disfunção familiar fazem com que muita gente viva só, sem suporte de quem quer que seja. Às vezes por questões de feitio pessoal, outras por quererem ser independentes, por não quererem ser um estorvo para a família. Tudo opções respeitáveis, até que chega a doença, crónica ou súbita e só se descobre o cadáver oito meses depois. Aos vizinhos nem o mau cheiro incomoda, aos familiares só a divisão de bens preocupa. Estamos a comemorar o Ano Europeu do Voluntariado, falamos muito de voluntários e voluntariado, de instituições que proliferam sem sabermos o que fazem e que capacidades têm para ajudar alguém. Vocacionamos muito o acto voluntário para o socorro e para a emergência, para o apoio às crianças ou para os idosos e para os toxicodependentes. O voluntariado por vezes parece uma moda de ocasião. Esquecemos gestos voluntários mais pequenos mas essenciais. O Voluntariado vocacionado para o vizinho que vive só, que precisa de alguém que lhe possa aviar uma receita, fazer uma compra, fazer um pouco de companhia ou até dar andamento às burocracias necessárias no caso do seu falecimento. No voluntariado não há tarefas menores. Não há voluntários de primeira ou de segunda. Toda e qualquer actividade em prol de quem precisa de apoio encerra a mesma nobreza e importância. O voluntário deve ter como última meta a defesa da dignidade da pessoa humana.