Com os resultados eleitorais do passado domingo ficou claro que a crise que nos atormenta exige uma ideia de consenso e uma capacidade de compromisso que vá além das palavras comícieiras, até insultos, da campanha eleitoral agora finda. Perante uma situação tão difícil como a que vivemos em Portugal é indispensável alargar a lógica de uma maioria aritmética a uma maioria política e social que mobilize o país e nos liberte do perigo de insolvência como Estado e até como Nação. De facto " as crises são momentos únicos de reflexão sobre a viabilidade como Nação". Neste sentido devemos faze-lo de uma forma tão abrangente quanto possível. Tão consensual quanto detentora de um pensamento com perspectivas algo diferenciadas mas nem por isso menos importantes na necessidade de ultrapassar a situação excepcional que vivemos. Porque "não podemos falhar". O novo governo, mas também a oposição, têm a obrigação de assumir um compromisso que permita a Portugal cumprir as obrigações com as instâncias internacionais que nos livraram, para já, da insolvência. Impõe-se, pois, enquanto comunidade política, mas também social, reinventarmos o futuro que nos espreita. Nunca como agora os valores da cidadania, a importância da sociedade civil, o dever de proteger os mais fracos, que mais sofrem com a crise que nos afronta, deixam de ser meros slogans para se apresentarem como verdadeiros desafios, quase desígnios. Falemos agora das eleições que determinaram uma nova maioria. Julgo, a este propósito, que as eleições do passado domingo evidenciaram, mais uma vez, que os fracassos dos políticos têm origem nas esperanças traídas. Que melhor demonstração disso do que a História de Portugal depois do 25 de Abril? Comprometer-se, como José Sócrates, a lutar contra a injustiça, a "fractura social", justifica-se desde que se esteja decidido a desencadear todos os meios para atingir um tal objectivo. Caso contrário, se seis anos depois o desemprego é aflitivo, as desigualdades se acentuam a precariedade das condições de vida permanecem, então a "fractura social" continua em aberto e cada um de nós sabe-o bem. Recorrer a fórmulas que não são traduzidas em actos, tem riscos, e essa tradução nunca aparece de repente. É preciso visão, determinação e vontade política. Nada está garantido para toda a vida. Mesmo que conseguissem ser fieis às suas promessas, os políticos não são eternos: a opinião pública cansa-se, os seus entusiasmos mudam-se e os seus desejos renovam-se, ao mesmo tempo, que o poder esgota a imaginação de quem o detém, que passa a não saber responder a novas aspirações. Foi o que aconteceu para além da crise internacional e da crise do euro. Tudo junto só veio confirmar que " a política foi, é e será sempre a vontade de mudar". Nunca ninguém estará satisfeito com o presente mesmo quando este é radioso, o que será quando o presente é triste e o futuro preocupante. O futuro, eis o campo de acção do político. Os mais exigentes vão mesmo mais longe: terá ele (Passos Coelho) no seu espírito uma " visão", a visão de um mundo novo que traduziria em factos se dispusesse dos meios para isso? Este projecto deverá ser, ao mesmo tempo, galvanizador e razoável, deverá suscitar o entusiasmo, mas não quimérico, sob pena de fazer nascer dúvidas sobre a sua seriedade. Ter um projecto, mesmo que este não tenha sido debatido, ter uma visão que é mais do que ter uma ideia para o país foi o que levou Passos Coelho a ganhar a eleições do passado Domingo. Penso que justamente. Quanto ao projecto e às ideias que estão consubstanciadas no programa eleitoral do PSD com que Passos Coelho se apresentou ao eleitorado falaremos nos próximos artigos. No que diz respeito à visão - uma pergunta se põe: terá ele (Passos Coelho) no seu espírito uma "visão"? A resposta é: não sei. Para mim, a visão apresenta uma perspectiva idealizada do que o futuro pode ser. Olha para além do futuro imediato de uma Nação. Dá aos cidadãos algo porque lutar. É particularmente importante em tempos de crise. Em suma, a visão constitui uma forma de transmitir aos nossos concidadãos uma "panorâmica geral", que os ajude a compreender o esforço no qual estão envolvidos e obter o seu empenho. Devidamente empregue, a mesma é indispensável a uma liderança séria. A ver vamos …

José Roque Martins