
Para onde sopram os ventos revolucionários dos desertos do norte de África? Até que ponto a Europa ficará imune ao contágio da onda de revolta árabe? Será que tudo se resume à inevitabilidade da reacção do radicalismo islâmico que combate fogo com fogo? Até que ponto a liberdade, a paz e a justiça germinarão das cinzas do horror dos corpos imolados na praça pública e das imagens do inferno difundidas nas redes sociais, contaminando gerações de jovens que encontram na violência de rua a arma para derrubar regimes autocráticos erguidos, também eles, à custa de golpes de Estado, do mesmo fogo e do mesmo derramamento de sangue? Estas são as questões que nos assaltam na vil sociedade, não tivéssemos nós uma relação de vizinhança e de proximidade geográfica com esta estranha forma de mudar.
Compreendo que os tunisinos estão fartos da farsa política e da corrupção. Estive na velha Medina de Tunis há três anos e lembro-me de que era expressamente proibido fotografar homens fardados e aproximar-se do palácio do governo. A liberdade era bastante condicionada. Era, por assim dizer, uma farsa, apenas para turista ver. Compreendo que a 'revolução do Jasmim' tivesse de se soltar nas ruas, empurrando o presidente Ben Ali, há 23 anos no poder, para o refúgio na Arábia Saudita, abrindo espaço à legalização dos partidos políticos e ao regresso de um líder islamita moderado que foi mantido pelo poder opressivo, durante 22 anos no exílio.
No Egipto já ninguém acredita em faraós. Civilização jaz no Vale dos Reis. Faz parte da história. Não fosse a mediatização, as redes sociais e o papel de rolha do radicalismo islâmico que emprestou ao Cairo uma veste pseudo-democrata, e o exército teria aberto fogo sobre a guerrilha instalada na praça Tahrir. A tensão já levou meia Constituição absolutista do presidente Hosni Mubarak para o sarcófago. O poder está pelo fio de umas eleições livres que põem fim a 29 anos de concentração da riqueza nas mãos de meia dúzia de magnatas, incluindo a família real, detentora de um património avaliado em 700 milhões de euros, num país rico mas banhado pela miséria, pela precariedade, pelo desemprego e minado pela corrupção.
Os ventos do deserto embalam a ousadia dos jovens contra a tradição do medo cultivado pelo domínio opressivo. A toada de conflitos, a vaga de reformas que desfazem constituições onde estão consagrados poderes ‘Ad aeternum’, a corrente de instabilidade política, a aragem da contaminação da revolta, varrem o deserto do Médio Oriente para Ocidente, como se de uma neblina de gafanhotos da mudança se tratasse.
E nós aqui na Madeira, instalados à beira de Casablanca, assistimos ao crescente alistamento de soldados mudos no pequeno exército de inconformados que se vai insurgindo pelo segredo do voto, contra a brisa árida que por aqui colcorreia e entorpece algumas liberdades, direitos e garantias. Também aqui, a imposição da cultura do medo começa a ruir por fora, à medida que apodrece por dentro o sentido da democracia representativa, fortemente arrolada no poder, viciada e deficitária.
“Ficou evidente que a cultura do medo não me envolveu nos seus braços; contudo, curvo-me respeitosamente, isso sim, perante aqueles que, vivendo o quotidiano nessa região, ousam fazer da sua verticalidade um hino à coragem e à esperança de virem a usufruir a autonomia na sua verdadeira plenitude”. As palavras foram proferidas pelo ex-comandante da Zona Marítima da Madeira, Figueiredo Robles, em 2004, quando abandonou a Marinha e decidiu desabafar a crítica à prepotência e ao autoritarismo que sentiu do poder mantido na Região há 34 anos. O mesmo com quem travou inúmeros conflitos ao longo da sua comissão de serviço de 34 meses. “Tive o privilégio de conhecer muitos deles e garanto-lhe que amanhã serão mais, assustadoramente muitos mais!”. A profecia já esteve mais longe.