No passado dia 23, foi eleito um presidente. Foi eleito um homem irado, vingativo, cujas primeiras palavras foram um "ajuste de contas" com os seus adversários. Foi eleito por menos de uma quarta parte dos eleitores que, se em termos da liturgia democrática, lhe asseguram efectivamente a vitória, não deixam, contudo, de o debilitar em termos do exercício efectivo da função. Infelizmente não se lhe vislumbrou qualquer vestígio de magnanimidade na vitória, nem se assumiu como presidente de todos os portugueses. Foi eleito um homem opaco, que não dissipou quando devia as suspeições que sobre ele recaíam, de ter sido objecto de tratamento de favor a nível da aquisição e posterior venda das acções do BPN. Anteriormente existiram já outras relativas a uma inexplicável protecção a Dias Loureiro. O esclarecimento impunha-se urgente, completo, de forma a dissipar cabalmente as dúvidas que ainda pairavam. O silêncio teimoso, obstinado, persistente trazem-nos à memória outros episódios recentes, outras histórias "mal contadas", outros personagens poderosos nossos conhecidos. Nas circunstâncias actuais, o país necessita desesperadamente dum líder com capacidade para mobilizar vontades, promover a coesão nacional para fazer face aos problemas que ameaçam a nossa soberania nacional. Em vez disso temos uma promessa de estabilidade conformista que nos conduziu à situação actual. Precisamos de acção, de reunir consensos alargados pouco compatíveis com visões tribalistas do cargo. No dia 23, os portugueses exprimiram claramente a sua vontade. Se juntarmos aos 53,57% de abstencionistas, os 4,26% de brancos e os 1,93% de nulos, temos um total de 59,76% de indivíduos que não honram o compromisso que o sistema democrático pressupõe. Se a estes adicionarmos os votantes nos outsiders José Manuel Coelho (4,5%) e Fernando Nobre (14,1%), obtemos um total de 78,36% de cidadãos desencantados que não se revêm no actual espectro do sistema político partidário. Não é lícito fazermos uma transposição tout court dos resultados das eleições presidenciais para próximas-futuras eleições legislativas. Consideramos, no entanto, que, a menos que sejam tomadas medidas tendentes à moralização do sistema, as tendência s de descrença e "anti-jogo" se irão manter e agravar. Na situação actual são cada vez mais sedutores os discursos radicais reduzidos à sua essência, organizados à volta de ideias simples e claras com que as pessoas se identificam e concordam, - "contra a roubalheira"; "contra os tachos para os amigos", etc.. Este discurso colhe cada vez mais adeptos e pode facilmente ser aproveitado como alternativa fácil e aliciante contra o actual establishment . Em 1983, num contexto algo semelhante ao actual, onde o PS e o PSD não constituíam alternativa credível para o governo da nação, apareceu o PRD (felizmente da área democrática) com propostas de honestidade, honradez e lisura. A falência destes princípios e o ocaso do PRD, "deram de bandeja" duas maiorias a Cavaco Silva, com a sua política de betão e auto-estradas, origem do mal com que nos defrontamos. Estamos na Europa, não creio que haja lugar ao aparecimento de alternativas ditatoriais, mas o actual estado de desencanto e desalento poderão trazer pela mão soluções tipo Berlusconi ou Sarcosy, ou ainda outras piores de direita ainda mais musculada. Teremos TODOS que pensar se este é realmente o futuro que queremos para o país porque, se nada fizermos este será certamente o futuro que teremos.
Helder Melim